Tuesday, October 15, 2013

Capitulo 9






Capitulo 9 - O Dia Mais Feliz 

Minha mãe costumava dizer que era muito difícil me acordar nos dias de aula da escola. Ela me chamava por muitas vezes ate eu acordar. Mas quando era o dia do ensaio da Kotekiai , eu levantava sozinha e antes mesmo dela. 

Nos sempre acordávamos as 4.30 da manha para pegar o trem das 6.30. Era necessário as duas horas antes porque minha mãe precisava passar na casa das outras crianças para irmos todos juntos. 

As meninas eram da Kotekiai ( Banda feminina) e os meninos eram do Ongakutai ( Banda masculina). Éramos todos ainda muito novos e nos meninas éramos do Pompomtai, um departamento dentro da banda Kotekiai. Nos dançávamos com um acessório nas mãos feito com um plástico amarelo que ficava igual ao daquelas meninas que dançam na abertura dos jogos americanos. Nos dançávamos e sacudíamos o acessório que nos chamávamos de pom pom. Os meninos já tocavam instrumentos desde de novinhos! 

Minha mãe levava todos eles quando os pais deles não tinham dinheiro para irem juntos ou tinham que trabalhar aos domingos. Alguns deles tinham mais de um filho na banda e eram muitos gastos com passagem e lanche. Então eles deixavam seus filhos irem com minha mãe. Eles também deixavam de ir para dar um pouco mais dinheiro aos filhos para comprar picolé. Todos nos gostávamos de comprar picolé no trem! 

Depois de nos arrumarmos, minha mãe e eu fazíamos o Gongyo e Daimoku. Demorávamos meia hora para fazer a oração pois na época ainda se fazia o Gongyo de cinco orações pela manha e demorava uns vinte minutes. Nos nunca saímos de casa sem o Gongyo e Daimoku! Mesmo quando sabíamos que teria oração no local do ensaio! Minha mãe dizia que era melhor fazer em casa para nossa proteção começar logo cedo e para sermos vitoriosa naquele dia! 

Mas nos sempre saímos de casa sem tomar café! 

"Querida, nos vamos tomar café no caminho ou no trem, tudo bem para você?" Minha mãe sempre perguntava.

"Tudo bem mãe!" Eu respondia. 

Eu realmente não me importava de tomar café no caminho! Primeiro porque eu nunca estava com fome as 4.30 da manha e segundo eu nao queria perder o trem das 6.30. Se isso acontecesse o próximo trem seria somente as 7 e nos chegaríamos atrasado para o inicio do ensaio da Kotekiai. E eu perderia a parte que eu mais gostava, que era a recitação do poema "Anjo da Paz". 

O poema foi escrito pelo fundador da banda Daisaku Ikeda e foi dedicado a cada integrante do grupo. O poema era bem grande e nos recitávamos ele de pé com as mãos atras das costas com a cabeça erguida olhando fixo para o horizonte. As garotas mais velhas da banda tinham memorizado o poema e eles recitavam os versos em um ritmo dinâmico! Demorava em torno de 15 minutos! Eu não estava certa de que eu seria capaz de recitar o poema como elas sem olhar no papel quando eu passasse para a banda. Isso aconteceria no futuro quando eu estivesse com 13 anos. Na época eu estava apenas com 9! 

"Porque nos temos que recitar o poema olhando para o horizonte?", eu perguntei uma das responsáveis do Pompomtai. 

"Porque nos pensamos no fundador da banda Daisaku Ikeda", ela disse. "Apesar dele estar no Japão, bem longe do Brasil, nos desejamos agradecer a ele do fundo dos nossos corações por ter fundado o grupo Kotekiai, por ter vendido suas próprias roupas para comprar os primeiros instrumentos musicais e doar aos membros da banda e por ter propagado esse budismo fora do Japão. Sem os esforços dele nos nao poderíamos fazer parte do grupo kotekitai e nem recitar  Nam- myoho- rengue- Kyo." 

"Mas como ele vai nos ouvir? Nossa voz conseguira chegar ate ele?", eu perguntei. 

"Ele não ira ouvir nossas vozes! Quando nos dissermos cada verso do poema e como se nos estivéssemos fazendo nosso juramento a ele de que através da nossa música nos transmitiremos  esperança e coragem para todas as pessoas, como ele desejou quando fundou o grupo." Ela disse. "Como acontece quando fazemos Nam- myoho- rengue- Kyo para alguém que estamos preocupados e que não vive perto de nos. Você já fez alguma vez? 

"Nao, nunca fiz. Mas minha mãe faz! Ela sempre diz que esta fazendo Daimoku para nossa família e amigos e eles não moram perto de nos." Eu disse. 


"Portanto sua mãe sabe que nossa oração chega ate as pessoas como se fosse ondas de radio. E nossa voz chegara ao coração do mestre Daisaku Ikeda e ele sentira que os membros da kotekitai estão aqui para fazer kosen rufu através da música", ela disse. 

Eu fiquei muito emocionada com as palavras dela e eu não imaginava o quanto aquele poema significava para cada uma de nos! Se eu já gostava do poema antes, depois da explicação dela, a passei a gostar mais ainda! 

A parte do poema que sempre me fazia chorar e ficar emocionada era; 

"Nem baionetas, sequer armas de fogo
Com um mero pífano e tambor
Vocês tocam o ritmo básico deste Universo místico.
Eles sentiram a ressonância,
E no fundo de seus corações
Surgirá uma razão para a Paz."

(Daisaku Ikeda)

Portanto eu jamais podia chegar atrasada! 

Então  quando estávamos todos juntos íamos a caminho da estação! Nos éramos em torno de dez pessoas e nos sempre tínhamos muitas bagagens e instrumentos musicais. 

Um dos meninos tinha escolhido tocar um instrumento grande chamado bumbo e minha mãe sempre perguntava a ele porque ele tinha escolhido um instrumento maior do que ele. 

"Não tinha um menor?" ela dizia. 

"Tinha dona Teresa! Mas eu gosto desse", ele respondia. 

O momento mais difícil da nossa caminhada ate a estação para pegar o trem era quando alguns metros antes de chegarmos a estação, o trem estava adiantado. Nos ouvíamos o trem apitar sua saída e víamos a luz de frente do primeiro vagão iluminando o caminho dele da estação de Santa Cruz ate Urucania onde o pegaríamos.

"Corram!", minha mãe gritou. 

Nos todos corremos! Minha mãe pegou o bumbo da mão do menino e pôs nos ombros dela e corria atras de nos. Ela também pediu ao mais velho dos meninos e a mais velha das meninas para correrem mais rápido e ficarem na porta do trem quando o trem parasse para ajudar os mais pequenos entrar no trem rápido e em segurança. 

Nos atravessamos a rua principal muito rápido antes de qualquer carro e subimos a rampa da estação! 

"Nao para! Nao para! Nos precisamos pegar aquele trem!", minha mãe disse. 

Quando chegamos na estação a mais velha das meninas passou por debaixo da roleta e o mais velho dos meninos passou por cima da roleta. Depois eles nos ajudaram a passar por debaixo da roleta. O funcionário da estação nem tinha tempo de falar nada pois o tempo estava correndo contra nos! 

Em um dia normal os mais velhos dos meninos e das meninas sempre pagavam a passagem. Mas  quando o trem saia mais cedo da estação anterior a nossa, eles não tinham tempo de parar e pagar. A boa coisa era que eles teriam mais dinheiro para comprar picolé e eles sempre dividiam com quem não tinha dinheiro. Eu era uma dessas! A coisa ruim e que minha mãe diria que nos tínhamos feito causa negativa em não pagar a passagem. Contudo nos não tínhamos tempo para pagar e o menino e a menina mais velhos já estava segurando a porta do trem. 

"Vamos, vamos!" O menino mais velho gritava! 

Cada um de nos éramos praticamente jogados dentro do trem pelo menino e a menina mais velhos que estava cada um em uma lado da porta do trem. Nos os mais novos tínhamos as pernas curtas e o espaço entre o trem e a plataforma era grande e alto. Uma das meninas pequeninas chorava para entrar no trem porque ela tinha medo de cair no buraco. 

Minha mãe era sempre a ultima a entrar porque ela queria estar certa de que todos tinham entrado primeiro. 

Logo que nos entramos no trem, o maquinista tocou a sirene e as portas se fecharam. Nos deixamos nossas mochilas caírem no chão e sentamos sem conseguir respirar! Ninguém disse uma palavra por um tempo. Aos poucos começamos a rir uns dos outros. Minha mãe foi a primeira a falar alguma coisa.

"Todo mundo esta aqui?" Ela perguntou. 

"Sim, dona Teresa!" O menino mais velho respondeu. Ele sempre contava quando colocava agente para dentro do trem! 

"Todo mundo esta bem?" A menina mais velha perguntou. 

"Sim nos estamos!" Respondemos todos ao mesmos tempo. 

"Conseguimos! Nos conseguimos! Vocês foram formidáveis!" Minha mãe disse. 

Nos conseguimos! Nos realmente conseguimos! Eu pensei. 

"Agora vamos tomar cafe e dormir porque vamos ter  um dia longo e tem que ser excelente e produtivo." Minha mãe disse. 

Eu estava faminta depois da corrida e meu pão com manteiga acabou em duas mordidas. Depois eu dormi como minha mãe ordenou. 

A viagem demorou por volta de uma hora e vinte minutos e nos tínhamos que andar mais vinte minutos ate a escola, local do ensaio. 

Nos chegamos na escola na hora certa! Os meninos foram para o lado direito e nos para o esquerdo. Aquela era a divisão da escola para ter dois grupos no mesmo local e mesmo dia.

Após a recitação do poema com todos os integrantes da kotekitai eu fui junto com os membros do Pompomtai e Silvia minha amiga para uma das salas do colégio para iniciar o ensaio do Pompomtai. Nos também tínhamos nosso poema mas era pequeno e nos recitávamos muito rápido. Nos ficávamos na sala na parte da manha para estudarmos as orientações do Sensei, aprender um pouco de teoria musical, praticar nossa coreografia e dialogarmos. As responsáveis do Pompomtai, que na época eram a Leila Martins e Cristina, perguntou se nos fazíamos a oração em casa com nossos pais. Depois elas explicaram o quanto era importante orar todos os dias para se ter uma vida de vitorias.

As responsáveis do Pompomtai, Cristina e Leila eram uma dupla perfeita! Elas eram o oposto! Enquanto Leila era calma, falava tranquilo e parecia aquelas fadas das florestas de desenhos animados, a Cristina era agitada, falava quase gritando para controlar a nos no momento da nossa bagunça e parecia um furacão quando entrava na sala! Nos ficávamos petrificadas quando ela entrava! As duas eram especiais para nos, cada uma do seu jeito! E ambas tinham um coração muito bom e uma forte ligação com o fundador da banda Daisaku Ikeda, que elas chamavam de nosso mestre! 

Eu ainda não sabia o que significava ter um mestre...

Na hora do almoço eu e Silvia sentávamos no corredor fora da sala e as vezes na quadra de esportes. Ela sempre tinha bolinho de arroz japonês e sempre me dava um. Meu lanche variava de ensaio para ensaio! Dependia o que tínhamos em casa! Apesar da minha mãe ter um bom trabalho no hospital, não sobrava muito dinheiro para termos boa comida como carne , queijo e presunto. Muitas vezes minha marmita era somente arroz, tomate e ovo. O legal e que muitas meninas que levavam muita comida que as mães faziam de propósito para elas dividirem com outras pessoas, sempre me ofereciam também. Assim eu nunca passava fome no ensaiamos sempre comia alguma coisa de diferente. 

Depois do almoço era o momento de ensaiar nossa dança com as meninas mais velhas que tocavam os instrumentos. Meu pompom na época, acessório que usávamos na mão para dançar, era muito grande, maior do que eu!!! Quando eu sacudia ninguém conseguia ver minha cara. Eu tinha dois pompons. Todo mundo tinha! Um era para ensaio que podia ser de qualquer cor e o outro para o dia de apresentação que era amarelo. Esse do dia da apresentação eu guardava dentro de um saco vazio de pão pulma debaixo do colchão da cama da minha mãe para ficar bem esticadinho e bonito. A responsável Cristina, que era mais rigorosa, dizia que se aparecêssemos no ensaio com o pompom enrugado, não poderíamos apresentar. Nosso pompom tinha que esta impecável! A outra responsável do pompom Leila dizia que o pompom era nosso instrumento!

O ensaio terminava as cinco e sempre estávamos muito cansados! Era momento de fazer a mesma viagem longa de volta para casa! Quando chegávamos na estação, nos sentávamos no chão da estão para comermos o resto da comida que tínhamos. Estávamos tão cansados e felizes que nem nos incomodávamos com as pessoas olhando agente sentados no chão. Nosso uniforme do pompom de ensaio que era branco e já estava sujo, ficava imundo!  

Quando o trem chegava e nos entravamos e sentávamos, a primeira coisa que fazíamos era comprar picolé. Era uma confusão pra escolher os sabores! alguns de nos tinham dois picolés, um em cada mão e tinha que chupar rápido para não derreter. Era um momento de muita diversão! Depois de tanta algazarra nos dormíamos. 

O dia do ensaio era o dia mais feliz da minha vida! Era um momento magico! era um momento que eu esquecia todos os meus problemas! era um momento que eu me sentia especial! 

Também era um momento que eu estava o di todo com a Silvia minha amiga, com minha mãe e não estava sozinha em casa com meu pai! 

Eu nao conseguia controlar minha ansiedade para o próximo ensaio! Eu também nao conseguia controlar minha ansiedade para ser como as outras meninas mais velhas e tocar meu instrumento! Eu somente nao imagina que se ser mais velha e participar na banda e tocar um instrumento como elas seria um grande desafio para mim!