Wednesday, November 19, 2014

Capitulo 18- Minha Eterna Gratidão


Capitulo 18- Minha Eterna Gratidão 

Quando estava passando na esquina onde meu amigo Leslie morava ouvi ele me gritando," 
Tatiana!!!!" 

Olhei rapidamente para o portão da casa dele e ele estava acenando para mim ir ao encontro dele. 

"O que foi Leslie, aconteceu alguma coisa?" 

"Sim, minha mãe esta chateada comigo porque emprestei o saxofone e pediu para eu pegar de volta." 

"Ela não sabia que estava comigo?" 

"Nao. Na verdade ninguém sabia! E eu não achei que precisava contar, já que o instrumento estava tanto tempo guardado encima do armário sem uso." 

"Você devia ter contato amigo." 

"Eu sei mas não fiz e ela descobriu que eu tinha emprestado quando ela abriu a caixa e viu que o saxofone não estava lá. Eu pus uma pedra para a caixa ficar pesada caso alguém pegasse." 

Meu amigo tinha me emprestado o saxofone sem a autorização dos pais dele e como já sabia que eles poderiam não aceitar, ele colou umas pedras grandes para a caixa ficar pesada parecendo que o instrumento estava lá. 

Fiquei sem palavras e um desanimo forte veio e senti minhas pernas bambas. Estava gostando tanto de tocar o saxofone e de repente a ideia de ficar sem ele me deixou muito triste. 

"Nao fique triste Tatiana. Eu tenho uma idéia." Ele disse. 

"Que idéia? Sua mãe não quer que você me empreste o saxofone e ela agora vai olhar dentro da caixa para saber o que tem lá." Eu respondi." E se eu falar com ela?" 

"Minha mãe e cabeça dura e ela disse que não quer que eu empreste o instrumento para ninguém. Se eu não quiser tocar, ela um dia vai vender." 

"Então, eu falo com ela e compro o instrumento." 

"Mas você disse que não tinha dinheiro para comprar um agora. E esse e novo e deve custar muito caro." 

Ela estava certo. Minha mãe ainda não tinha conseguido o trabalho mais do que bom, como ela disse, para conseguir comprar meus instrumento alem das despesas que tínhamos em casa. Ela até conseguiu alguns plantões particulares por alguns dias, mas eram para comprar comida. E meu pai continuava na mesma situação de sempre, trabalhava fazendo pinturas e desenhos, saia para vender nos bares, açougues etc e gastava mais com ele mesmo do que ajudando em casa. 

"Mas eu te disse que eu tive uma idéia." Ele disse eufórico. "Você tem somente um ensaio por mês e é em um domingo,certo?" 

Eu acenei a cabeça confirmando. Estava muito fraca com toda aquela noticia para dizer qualquer palavra. 

"Então, sei que você pega o trem muito cedo e passa aqui ainda no escuro. Combinamos uma hora e eu venho aqui e jogo o saxofone para você pelo muro." 

Ele estava completamente louco! Eu passava na esquina da casa dele por volta das 5.30 da manha! Era muito cedo para um adolescente acordar e ainda no domingo. 

"Mas como você vai fazer isso sem acordar seus pais e seus irmão?" 

"Isso deixa comigo." 

E assim ficou combinado. 

Eu estava tão desnorteada com a noticia de que eu teria que devolver o saxofone que nem pensei que nos dois estaríamos fazendo causa escondendo da mãe dele que o saxofone estaria comigo no primeiro domingo de vaca mês. 

Fui para casa sem o instrumento e senti um vazio muito grande. Como eu aprenderia tocar bem tendo o instrumento somente uma vez por mês. E minhas aulas com meu amigo do grupo ongakutai, André Accyoli? 

Fiz daimoku sem saber o que pensar. Apenas orei para vencer. Precisava vencer porque agora eu nao estava mais sozinha no setor. Eu já tinha um membro que tinha comprado um saxofone tenor. Ela se chamava Rochana ( acho que era assim que ela se chamava). Eram duas irmãs que tinham entrado na kotekitai recentemente e a IRMA tocava flauta transversa. 

Depois de horas de daimoku para acalmar meu coracao e continuar a avançar no meu objetivo de ter meu próprio instrumento, meu professor André Accyoli que ja estava sabendo do ocorrido pediu para eu ir em Copacabana encontrar com ele na casa de outro membro do ongakutai chamado Marcio Rangel.

Mais uma longa viagem e dessa vez sem o saxofone. 

Quando cheguei na casa do Marcio Rangel, o André Accyoli já estava lá. Entrei, olhei para os dois e Marcio Rangel, que eu só conhecia de vista nos ensaios do ongakutai, me pediu para o acompanhar até o quarto dele. Achei estranho mas fui e ele então se abaixou e tirou debaixo da cama um saxofone prateado, velho, sujo e sem a caixa. Ele levantou do chão, olhou para mim e disse:

" Esta um pouco sujo, mas se você conseguir tocar esse saxofone aqui, você será capaz de tocar qualquer um que vier pela frente." 

Estiquei minha mão e peguei aquele instrumento como se eu estivesse recebendo um tesouro valioso em minhas mãos. Era mesmo muito velho! Estava mesmo muito sujo! Mas era minha nova chance de continuar minha missão como anjo da paz. Meus olhos encheram de lagrimas e eu aceitei com todo meu coração! 

Fui para casa mais feliz do que quando peguei o saxofone dourado e novo do meu amigo Noquinho. Não era por causa dos instrumentos. Era minha vida que não estava sendo derrotada pelos obstáculos! E eu me sentia mais e mais feliz e forte cada etapa que eu vencia. 

No caminho de volta para casa, que era longo, fui pensando e agradecendo o meu mestre Daisaku Ikeda por me incentivar constantemente com suas orientações, poemas , por ter  fundado as bandas Kotekitai e ongakutai e por ser meu mestre. Por varias vezes olhando pela janela do ônibus senti vontade de chorar de emoção e uma coragem surgia forte no meu coração. 

Assim que cheguei em casa peguei o instrumento para ensaiar. Mas algo inexplicável aconteceu! Não conseguia tirar nenhum som! Tirei palheta, coloquei palheta e nada. 
"Meus deuses! O que esta acontecendo?" Perguntei a mim mesma em voz alta. 
Eu já sabia tirar a primeira escala no saxofone alto dourado do meu amigo Noquinho. Mas no saxofone velho prateado do Marcio Rangel, nenhuma nota! Ele estava certo! Se eu conseguisse tocar aquele instrumento velho, eu tocaria qualquer um! 

Sentei na frente do gohonzon e orei. E todos os dias pegava no instrumento pelo menos por uma hora e uma vez por semana encontrava André Accyoli. 

Com o tempo as notas foram saindo e eu amava cada vez mais o som do meu instrumento. Nao era meu, mas era como se fosse. Eu cuidava dele como se fosse meu e era meu instrumento de missão, como nos eram passado pelas responsáveis da KOTEKITAI.

O dia do ensaio chegou e estava nervosa para encontrar meu amigo Noquinho na frente da casa dele para me passar o instrumento. Ainda estava escuro, como sempre estava naquela hora bem cedo. Um silencio forte nas ruas e minha mãe estava esperando outras crianças e pais em uma outra esquina para todos irmos juntos. Minha mãe nem perguntou o que estava se passando. Mas acho que ela sentia que era algo muito importante. 

Fiquei parada enfrente ao muro e esperei alguns minutos. 

"Tati." Ouvi a voz do Noquinho. 

Olhei para cima do muro, de onde vinha a voz, e lá estava ele com uma bolsa de mercado enorme de papel e jogou para mim por cima do muro. Naquela época as bolsas de compras que os supermercados ofereciam eram de papel. 

"Vai, vai! Bom ensaio!" Ele disse e desapareceu. 

Peguei a bolsa e sai andando sem olhar para trás. Estava com medo da mãe dele descobri. Também medo dele  ficar mal com a mãe e também de perder minha única oportunidade de tocar o saxofone alto pelo menos um dia no mês. 

Encontrei com minha mãe e os demais colegas membros de ambos os grupos, kotekitai e ongakutai e fomos para a estação pegar o trem. 

No ensaio senti a diferença no meu som quando separamos por setor. Eu estava tocando muito melhor! Ensaiar no saxofone soprano prateado e velho fez meu som no saxofone alto dourado e novo sair muito mais bonito. 

A situação com meu amigo Noquinho durou alguns meses. Contundo um dia eu decidi nao mais pegar o saxofone. 

"Porque não?" Ele perguntou. "Estamos fazendo isso muito bem. Minha mãe nem sonha que você tem o instrumento uma vez ao mês." 

"Eu sei amigo. Mas na verdade sei que estamos fazendo a coisa errada. Eu aceitei porque estava desesperada para tocar o saxofone, mas estamos fazendo causa. E eu por ser budista estou permitindo que voce faca a causa junto comigo. E se ela descobrir, eu também estarei contribuindo para que ela faca causa quando ela questionar minha atitude como budista." 

Noquinho me olhou com cara de quem não estava entendendo nada. 

"Muito obrigada por tudo que voce fez por mim esses meses. Não se preocupe, eu vou conseguir comprar meu próprio saxofone." 

Peguei o instrumento e dei a ele depois de um longo dia de ensaio. Normalmente domingo a noite quando eu voltava do ensaio os pais dele nunca estavam em casa e era fácil devolver o saxofone. 

Depois daquela minha decisão, tive mais três saxofones  alto emprestado; um do Fabio , outro membro do Ongakutai, um de um amigo do pai da minha prima Ataandia e um de um amigo do meu primeiro namorado Danilo Barbosa. 

Com todo esse apoio vindo de todos os lados consegui aprender a musica que tocaríamos no festival da Eco 92. A musica era muito difícil e eu estava muito feliz de saber toca-lá toda. 

Um dia cheguei em casa depois da escola e minha mãe estava me esperando ansiosa. 

"Tenho uma novidade." Ela disse. 

"O que foi mãe? Conta logo?" 

"Consegui um plantão muito bom e vão me pagar muito bem e vou poder comprar seu saxofone. Mas tem que ser usado!" 

"Jura mãe?" E comecei a pular de alegria. Claro que podia ser usado! Desde que fosse meu. 

Um dos rapazes que estava me emprestando o saxofone já tinha comentado que queria vender e eu comprei dele. Quando ele me entregou a caixa eu não contive minha emoção! 
A caixa era preta, velha e descascada. O saxofone era prateado, velho e descascado, MAS ERA MEU!!!! E eu estava orgulhosa de ter meu próprio saxofone. 

Desci as escadas do centro cultural do Rio de Janeiro para meu primeiro ensaio com meu saxofone e as pessoas que me conheciam e sabiam da minha luta para ter um instrumento a cada ensaio me perguntavam:"De quem é o saxofone dessa vez Tati?" E eu respondia:" ESSE AGORA E MEU!" Todos comemoraram comigo a grande vitoria. 

A batalha do instrumento eu tinha vencido e jamais me esqueceria do meu amigo Leslie ( Noquinho), André Accyoli, Marcio Rangel e os amigos dos amigos que me emprestaram o saxofone. Minha gratidão será eterna! E minha oração estará sempre com eles. 




Monday, November 17, 2014

Capitulo 17


Capitulo 17- Vencer pelo Mestre 

O festival cultural da Area Campo Grande foi minha primeira oportunidade de cumprir meu juramento de viver pela felicidade das pessoas ( Kosen- rufu) que eu tinha feito no hospital. Eu também tinha jurado que seguiria Daisaku Ikeda pelo resto de minha vida como meu mestre. Com a recitação do Nam-myoho- rengue- kyo e do meu juramento consegui transformar meu carma de morrer jovem. Definitivamente eu tinha transformado o veneno em remédio! 

Depois daquele dia emocionante, do festival da area Campo Grande, eu passei a ir em todas as atividades da Gakkai, aos ensaios da Nova Era Kotekitai e fazia minha pratica diária de gongyo e daimoku espontaneamente sem minha mãe ter que me pedir para fazer. Eu queria cumprir meu juramento! Eu tinha que cumprir o que eu tinha prometido. 

Meses depois recebi minha primeira responsabilidade na organização vertical como responsável de bloco das jovens mulheres. E na banda feminina Kotekitai fui informada pela responsável geral da época, Heloísa Helena, que eu poderia tocar saxofone, instrumento que eu vinha acalentando tocar desde quando mudei do departamento pompom tai para a banda. 

Apesar de estar muito feliz em contribuir para o avanço do kosen rufu como responsável de bloco e tocar saxofone na banda, eu tinha dois grandes obstáculos que eu precisava vencer; minha gagueira e vergonha de falar na reunião e a falta de dinheiro para comprar o saxofone. 

A gagueira começou na época em que minha mae trabalhava  a noite como auxiliar de enfermagem no hospital e me deixava com meu pai. Ele constantemente saia a noite e me deixava sozinha em casa. Eu tinha muito medo de ficar em casa sozinha e não conseguia dormir. Tinha medo de escuro e qualquer barulho me assustava e eu chorava. Eu só estava com 8 para 9 anos quando isso aconteceu  e parece que meu nervoso afetou minha comunicação. A cada ano minha gagueira ficava pior e o primeiro local que eu comecei ater problemas foi na escola. Eu não conseguia ler em publico, fazer perguntas quando tinha duvidas na matéria e não fazia amigos porque nem falar o meu próprio nome eu conseguia.

Lembro que quando eu estava na quinta serie, minha professora de português me obrigou a ler um texto em pé na frente dos outros alunos. Ela sabia que eu tinha problema, mas ela não considerou e me ameaçou reprovar-me se eu não o fizesse. Eu fiquei paralisada como uma múmia na frente de todos meus colegas de classe e nenhum som saiu da minha boca. Cada vez que ela dizia:" Leia, leia!" Eu ficava mais nervosa e cheguei a quebrar um dente da frente tentando ler. Meus colegas de classe riram de mim e eu não voltei mais na aulas de português até terminar o ano letivo. Então fui reprovada naquele ano por faltas. O ano seguinte foi ainda pior, porque eu passei a ter medo dos professores. 

Com minha responsabilidade na Gakkai eu precisava usar a voz para varias coisas como por exemplo fazer um Shikai( MC) na reunião, passar informações sobre alguma companha nova, incentivar, liderar gongyo e fazer visitas. Lembro como se fosse hoje que o primeiro gongyo que eu liderei em uma reunião eu não conseguia sair do Hopen pon... O resto alguém continuou  para mim. Quando chegava perto da segunda parte eu falava comigo mesmo:" Sensei eu preciso conseguir falar, eu tenho que conseguir! Pelos membros, pelo meu mestre!" Essa era minha luta interna cada vez que eu era indicada para liderar um gongyo. As demais coisas eu sempre tentava fugir e passar para uma outra pessoa fazer. Não porque eu não queria, porque não me achava capaz de fazer por causa da minha dificuldade de comunicação. Nas visitas individuais, quando eu queria ler uma orientação do sensei eu pedia para a menina ler a parte que estava sublinhada no jornal ou na revista. E escrevia muitas cartas de incentivo para compensar minha falha de não me comunicar com elas como deveria. 

Uma vez minha responsável de área Paulene, me perguntou porque eu era a única que não ligava para ela para passar os resultados. Então eu contei a ela que eu tinha ido ao orelhão telefonar a ela varias vezes mas minha voz não saia quando ela atendia o telefone. Eu ouvia a voz dela perguntando quem era, mas eu não conseguia falar meu nome. Eu ficava com o telefone na mão olhando para os números e ligava e desligava varias vezes sem conseguir dizer uma palavra. Cada vez que isso acontecia, eu chorava e decidia que um dia eu ia vencer minha gagueira definitivamente. 

Então era um desafio para mim fazer as atividades da Gakkai na organização vertical porque eu tinha vergonha da minha situação. Por outro lado eu não tinha muitos problemas na Banda Kotekitai, onde minha voz não era tão necessária. Eu apenas precisava tocar um instrumento. E com a noticia de que eu poderia tocar o saxofone fez com que eu me esforçasse mais na pratica para conseguir ter o meu. 

Na época que eu recebi a noticia, tanto minha mãe quanto meu pai estavam desempregados. Minha mãe tinha saído do hospital para trabalhar como enfermeira particular, mas estava sem nenhum paciente. Falei com minha mãe sobre o saxofone e ela apenas me disse para eu orar porque comprar um instrumento caro como aquele ela precisaria de trabalho mais do que bom.  

Comecei a orar para minha mãe conseguir um trabalho que desse condições a ela de pagar todas as contas de casa e comprar meu saxofone. Mas eu precisava de um saxofone rápido porque estávamos ensaiando para participar do festival cultural da ECO 92 que seria no maracanazinho  e eu já queria tocar o saxofone. Então perguntei a varias pessoas conhecidas se sabia de alguém que tinha o saxofone para me emprestar. Um dia conversando com meu amigo de classe Leslie, ele me disse que ele tinha um saxofone novinho na caixa e que nunca tinha usado e que me emprestaria. 

"Como assim novo?" Eu perguntei. 

"Novo! Meu pai ganhou alguns instrumentos musicais e me deu o saxofone mas eu não toco. Esta na caixa do jeito que ele me deu." Ele respondeu. 

Eu não estava acreditando no que estava ouvindo. 

"Seu pai não vai brigar com você se me emprestar?" 

"Claro que não! O instrumento e meu e eu posso fazer com ele o que eu quiser. E você e minha amiga e sei que vai usar bem na banda do budismo." Ele disse. Ele sabia que eu era budista e que participava na banda feminina da Soka Gakkai. 

No mesmo dia fomos a casa dele para pegar o saxofone. Ninguém estava em casa e ele pegou a caixa com o saxofone encima do armário do quarto dele. Ele abriu e la estava o saxofone dourado. Era realmente novo! Era lindo! 

Fui para casa toda feliz e tentei tirar o som do instrumento sozinha até chegar o dia do ensaio. No dia do ensaio eu levei o saxofone e foi a primeira vez que na hora de separar por setor ( instrumento, departamento) eu estava no setor saxofone. Apesar de estar sozinha e tentando tirar som sozinha, eu estava muito feliz. 

Quando os membros do Ongakutai ficaram sabendo que na banda tínhamos um saxofone, um dos membros da banda que tocava saxofone se ofereceu para me ensinar. Então comecei a ter aulas com André Acyoli que na época morava em Copacabana. Eu viajava por quase duas horas de onde eu morava ( Urucania- entre os bairros Santa Cruz e Paciencia) ate Copacabana. as vezes eu nao tinha dinheiro para pagar a passagem e ia de roupa de escola. as vezes nao tinha nada para comer e ficava mais tonta ainda quando soprava para tirar som do saxofone. 

Apesar  de todas as dificuldades, eu estava aprendendo rápido e estava muito feliz. Para completar minha alegria, fui indicada como responsável do setor saxofone e definitivamente o setor foi fundado. eu era o primeiro membro do setor. 

Tudo estava indo muito bem até o dia que a mãe do meu amigo deixou a caixa do saxofone cair, quando estava limpando o quarto dele e ela descobriu que lá dentro tinha uma enorme pedra ao invés de um instrumento. 


Esse capitulo e em homenagem ao meu amigo Leslie, mais conhecido como Noquinho- faleceu assassinado na Urucãnia)

Monday, February 3, 2014

Capitulo 16


Capitulo 16- uma vez decidido, realize custe o que custar 

No dia seguinte acordei com o enfermeiro entrando no quarto para aplicar uma injeção e me dar os primeiros seis comprimidos do dia. O enfermeiro não era o mesmo enfermeiro que parecia o lutador de luta livre, mas também era alto, forte e me deu a injeção tão rápido e tao leve que eu nem senti a picada. A parte mais difícil continuava sendo os comprimidos, mas ele também não se importava com o longo tempo que eu demorava para tomar os comprimidos.

 Minha oração tinha sido respondida de forma perfeita! Um quarto bonito com televisão, um tratamento maravilhoso e uma bandeja de cafe da manha com tudo que tinha direito dentro da dieta.  Eu estava me sentindo no paraíso! 

Precisava fazer tudo direitinho para sair rápido do hospital e participar do festival dos jovens. Então passei a tomar todo o suco de beterraba com cenoura e laranja que eu costumava sempre jogar fora pela janela. Me esforçava muito para tomar todos os comprimidos na primeira tentativa para nao desperdiçar nem um pedacinho do remédio. Fazia meu Gongyo e Daimoku todos os dias assim que acordava e andava pelos corredores para exercitar o meu corpo. Também aproveitava para conhecer os outros pacientes e falar do budismo. Queria falar mais e mais do budismo para muitas pessoas! 


Uma vez por semana eu tinha exames para verificar como estava meu pulmão esquerdo. O mais importante era vencer a doença para ela não ser mais contagiosa. O tratamento teria que ser por seis meses para que isso acontecesse! Mas eu não tinha seis meses! Eu tinha menos de três! O festival aconteceria em breve e eu tinha que ser vitoriosa na minha decisão!

Quando eu orava, pensava no meu objetivo e na minha decisão de viver pela felicidade das pessoas. Como eu tinha sido vitoriosa e já não corria mais risco de vida, eu sentia que o festival dos jovens seria minha primeira oportunidade para começar a cumprir meu juramento.  Por isso eu não podia ser derrotada! 

Minha mãe levou algumas revistas e jornais da BSGI para eu ler. As orientações do Presidente Ikeda, meu mestre, me ajudaram a fortalecer minha fé e convicção de que eu seria vitoriosa. Eu estava a cada dia mais convicta! Eu estava a cada dia mais forte! E eu estava me sentindo mais feliz, apesar de estar ainda no hospital! Já não me sentia mais miserável e triste como no dia que acordei depois da cirurgia. Eu estava cheia de coragem e esperança! 

Os dias foram passando e eu continuei a dedicar -me nas leituras das orientações do Presidente Ikeda e na recitação do meu Gongyo pela manha e noite. Eu fazia Daimoku varias vezes ao dia! 

No dia da visita daquela semana, minha mãe me contou que meu pai tinha ido me visitar na UTI uma vez mas eu estava dormindo e que ele tinha decidido praticar o budismo novamente se eu ficasse boa. Apesar de não me importar com nada que vinha do meu pai, eu fiquei feliz com a decisão dele. Praticar seria a única forma dele transformar seu Carma negativo. Mas a decisão dele não durou muito! quando ele viu que eu já estava muito melhor, ele parou de praticar de novo! Alem de meu pai ser um pouco preguiçoso, ele tinha dificuldades em assumir compromissos. Talvez por causa do uso das drogas. Não sei ao certo. Também não me interessava muito o que vinha dele! Eu apenas queria que ele praticasse para nunca mais fazer coisas erradas! 


Naquela semana fiz os exames e o medico disse que minha recuperação estava sendo muito positiva e como resultado dessa recuperação, eu não precisava mais do tubo que estava no meu pulmão e dos remédios que eram injetados na minha veia. O medico e dois enfermeiros vieram na parte da tarde daquele mesmo dia tirar a borracha do meu pulmão e a seringa da minha mão. 

"Tatiana, preciso que voce respire fundo e prenda a respiracao", disse o medico. 

"E o que o senhor vai fazer?", eu perguntei.

"O que eu vou fazer, você nao precisa saber. Mas para que você  nao sinta dor, voce precisa fazer o que eu disse." 

Comecei a chorar. 

"Esta chorando porque", ele perguntou. 

"Porque sei que vai doer!" 

"Como pode saber que vai doer? você já fez isso antes?" 

Olhei para o medico com os olhos cheio de lagrimas que mal conseguia o enxergar. 

"Olha, você me disse que quer sair logo desse hospital. Tirar essas coisas de você e um sinal de que sua recuperação esta cada dia melhor. Concorda comigo?" 

Eu balancei a cabeça confirmando. 

"Então, vamos tirar a borracha? " 

Eu respirei fundo umas três vezes, mas não consegui prender a respiração. Ainda estava com medo. 

O medico me olhou e sorriu para me acalmar. 

"Vou contar de um a três e no três você segura a respiração" ele disse. 

Fiquei nervosa. Pensei no Sensei e na minha decisão e quando ele chegou no tres eu fechei os olhos e prendi a respiração. 

"Pode abrir os olhos Tatiana. Já acabou" ele disse. 

"Mas como já acabou? Eu não senti nada!" 

"Eu te disse que seria rápido." 

A borracha estava coberta de sangue e um dos enfermeiros veio imediatamente ate a mim para costurar o buraco que ficou na minha pele enquanto o outro enfermeiro tirou a seringa com a agulha que estava na minha mão direita. 

Quando eles terminaram eu sorri e relaxei na cama. Nossa, como era boa a sensação de não ter mais nada grudado em mim o tempo todo!  Agora podia caminhar mais pelos corredores. 

"Doutor, agora que estou melhor vou poder sair do hospital em breve", eu disse. 

"Estar melhor não significa que possa ir embora", o medico respondeu." Mas tenho que confessar que se a sua recuperação continuar tão rápido assim, não terei motivos para te prender aqui." O medico riu. 

"Minha oração estava funcionando novamente! Minha recuperação estava sendo mais rápida do que o medico esperava. Precisava orar mais e com mais determinação!", pensei alto. 

E assim o fiz! Orei mais Daimoku e acreditei mais e mais que a vitoria seria certa! 

As meninas da organização (BSGI) vinham sempre me visitar nos dias das visitas e me contavam como estavam os ensaios do festival. Minha prima Ataandia também estava na dança e ela me contava tudo com detalhes e dizia que sentia minha falta no grupo. Ela na verdade não era minha prima de sangue, mas desde o dia que o pai dela foi participar no grupo que funcionava na minha casa, nos nos tornamos mais do que amiga. 

Também vinha me visitar a responsável do setor pifano,instrumento que eu tocava na banda feminina Kotekitai, pelo menos duas vezes por semana. Eu fiquei muito surpresa e contente com a preocupação dela comigo. A visita dela e das meninas do festival me davam mais vontade de lutar e vencer! 

 Toda semana o resultado dos exames mostrava minha recuperação! Quando completou um mês e 19 dias que eu estava internada, tivemos a visita do medico. 

Eu estava muito curiosa para saber o que o medico queria tanto falar comigo e minha mãe. 
De repente o medico entrou no quarto com uma pasta na mão. 

"Olá Tatiana! Como se sente hoje?" Ele perguntou. 

"Muito bem!" 

"Pronta para ir para casa?" 

"Como assim doutor? Posso ir embora?" 

"Sim, você pode!" 

Eu fiquei muito emocionada. Mais uma vez lagrimas veio nos meus olhos e a felicidade que eu senti era maravilhosa. 

"Mas o senhor disse que ela ficaria aqui pelo menos seis meses", minha mãe disse. 

"Era o que eu acreditava. Mas sua filha desde a cirurgia ate agora tem mostrado recuperações e resultados que nem eu consigo explicar" ele disse. 

"Mas eu sei doutor!" Eu disse. "Eu sou budista e minha oração me ajudou a vencer tudo!" 

O medico me olhou com uma expressão de surpresa com a minha resposta. 

"Sei que tem coisas que a fé consegue realizar que a medicina não consegue explicar. Mas então, se você diz que foi sua fé, deu certo e você terá alta do hospital amanha." 

Eu pulei de alegria! "Agora posso participar do festival!" Eu disse quase gritando. 

"Calma, calma. Seu tratamento continua em casa com os remédios e as injeções. Você precisa se alimentar muito bem e descansar o máximo que puder. Nao pode  se cansar desnecessariamente e nem pegar muito sol e tempo frio. Qualquer resfriado e recaída e um perigo para você." ele disse. 

"Mas eu prometi. Eu sinto que eu fui vitoriosa porque eu prometi participar desse festival junto com meus companheiros." 

Minha me me olhou e rapidamente disse,"Pode deixar doutor, eu cuido dela." 

No dia seguinte pela manha minha mãe veio me buscar de carro com um amigo e eu despedi do medico, da tia dele e dos enfermeiro que estavam de plantão. Agradeci a todos do fundo do meu coracao! 

Quando chegamos do lado de fora do hospital eu tive que fechar meus olhos varias vezes por causa da claridade do dia lindo que estava fazendo! muito tempo dentro do hospital me deixou com as vistas sensíveis. UM MÊS E VINTE DIAS INTERNADA! Quantas coisas tinham acontecido naquele tempo! Quantas descobertas! Quantas vitorias! Eu estava me sentindo muito feliz e vitoriosa! 

Quando chegamos em casa meu pai estava lá nos esperando. 

"Parabéns filha! Que bom que você esta em casa" ele disse. 

Apesar de não gostar de ficar perto do meu pai eu aceitei o abraço dele porque minha mae estava perto e eu estava mesmo muito feliz com a minha vitoria! 

Minha casa estava preparada para me receber. Uma cama improvisada no sofá da sala, porque eu não tinha um quarto só para mim. Toalhas e talheres separados encima de uma mesinha também improvisada perto do sofá. Um almoco delicioso que minha mae tinha deixado preparado desde do dia anterior para quando chegássemos em casa. A comida da minha mae estava tão boa que comi duas vezes. Que saudade da comida da minha mãe! Que saudade do tempero da comida da minha mãe!  O aconchego de casa e o carinho da  minha mae me deu uma sono profundo e eu dormi por toda a tarde. Quando acordei meu pai já não estava mais em casa, como de costume. 

No primeiro fim de semana depois que sai do hospital seria o ensaio do festival. Minha mãe estava preocupada com o meu bem estar e ela tentou algumas vezes me convencer de não participar para que minha recuperação fosse mais rápida ainda. 

"Mãe não  posso. Eu prometi. E o Presidente Ikeda diz que " Uma vez prometido temos que concretizar." 

"Desculpa filha. Eu sei que você esta certa. Eu apenas fiquei preocupada de você ter uma recaída." 

"O pior já passou mãe." 

Ela me olhou e sorriu confirmando. 

O dia do ensaio chegou e eu estava super ansiosa para chegar ao local do ensaio e dançar junto com minhas amigas da Gakkai. O dia estava lindo ensolarado e minha mãe comentou com um pouco de preocupação que seria um dia bem quente. Ela então preparou uma mala com bastante água, frutas e nosso almoço. Também pegou um guarda-chuva, um boné e os remédios e toalhas para secar meu rosto. A doença não era mais contagiosa mas o medico tinha dito que era melhor ainda usar tudo separado. 

Chegamos no local do ensaio um pouco atrasadas porque tínhamos muitas coisas para preparar antes de sair de casa. O local do ensaio era na casa de um membro da Gakkai em Campo Grande. A casa era grande e o ensaio estava acontecendo no terraço da casa. Eu subi as escadas devagarinho para não fazer muito esforço e me cansar rápido. Eu queria guardar as minhas energias com a dança! 

As meninas estavam ensaiando a coreografia sem a musica e quando elas me viram correram ate a mim para me dar boa boas vindas e também os parabéns pela grande vitoria. Estavam todas muito felizes! Pareciam minhas irmãs, minha família! 

Minha prima Ataandia e outras meninas me ajudaram a pegar a coreografia. apesar de estar de boné, minha mae me acompanhava o tempo todo com um guarda- chuva aberto para que eu não pegasse o sol forte que fazia.  A dedicação da minha mãe em todos os aspectos para me apoiar na minha decisão foi crucial para eu cumprir o que tinha prometido! 


Todas nos estávamos ensaiando de uniforme solicitado pelos responsáveis do festival para agüentar o sol quente nos dias de ensaio. Calca comprida  e camiseta branca de malha fina. A cor branca era a cor mais fresca que não absorvia o calor e a calca também nos protegia de não machucar o joelho se caíssemos no chão. Para algumas meninas era muito difícil ensaiar com roupas como aquela, mas para mim que era membro da banda feminina Kotekitai, era normal pois também ensaiávamos com o mesmo uniforme. 

A musica que nos iríamos dançar era uma das musicas que eu mais gostava do musico Milton Nascimento "CORAÇÃO DE ESTUDANTE."  Fiquei muito emocionada quando vi as meninas dancando com aquela musica. 


Consegui participar mais ou menos de uns seis ensaios antes do festival e no ultimo ensaio, exatamente uma semana antes do festival a responsável da dança veio falar comigo. 

"Tatiana, na parte final da dança nos vamos todas correr para o meio, fechar um circulo e abaixar como se fosse uma concha. Quando chegar a parte final da musica "folhas, coração, juventude e fé" vamos abrir e fazer uma meia lua. E do meio vai surgir alguém que vai se posicionar na frente da meia lua segurando a bandeira do Brazil." 

"Que lindo!" Eu disse. 

"E todas nos queremos que essa pessoa seja você!" 

Meus olhos encheram de lagrimas e eu chorei. 

"Nao chora Tatiana! Você nao quer?" 

Depois de segurar as lagrimas eu disse," Será uma honra para mim fazer isso, mas eu acabei de chegar e as meninas estão se esforçando tanto por tanto tempo que eu acho que deveria ser uma delas." 

"Mas foram elas que disseram que tem que ser você. Por toda luta que você fez para chegar aqui e participar desse festival" 

Respirei fundo e sorri. 

"Então eu aceito representando todas elas e o Sensei, nosso mestre!" 

Todas as meninas bateram palmas e gritavam quando a responsável anunciou que eu tinha aceitado a abrir a bandeira do Brasil no momento final da apresentação. 

Eu estava muito, mais muito feliz! 

O dia do festival chegou! Tantos jovens de diferentes grupos; dança, ginastica etc... andando de um lado para o outro no Colégio Campo Grande. As outras divisões também estavam presente dando apoio de todas as formas; transporte, arrumação do local, decoração etc... E também as mães com bolsas e bolsas cheias de lanches para seus filhos e para oferecer a mais alguém. Minha mae também tinha levado comida sobrando para dar aos que não tinham lanche. 

Eu estava muito nervosa para o momento da nossa apresentação. Enquanto esperava no local de concentração eu fazia Daimoku junto com as integrantes do grupo e veio um filme na minha cabeça de tudo que eu tinha vivido naqueles um mês e vinte dias que fiquei no hospital. Lembrei do meu juramento ao Sensei e da minha decisão de praticar pelo resto da minha vida e de viver pela felicidade das pessoas como meu mestre fazia. Estava tão emocionada que nem percebi a hora passar e chegar o momento de entrar. 

"Todas prontas? Somos nos agora!" Gritou a responsável da nossa dança. 

Meu corpo estremeceu
Meu coração disparou
E as lagrimas novamente molharam meus olhos. 

Entramos e posicionamos
Olhei para o publico que enchia as arquibancadas
Esperamos a musica começar
A musica começou e nos começamos a dançar 

Nao conseguia ver ninguém
Somente enxergava o horizonte

Estava pensando na vida
Estava pensando no Sensei

Dancei para o mestre
Dancei para as pessoas
Dancei para o futuro que me esperava
Dancei para vencer sempre

A parte final se aproximava 
E meu momento estava chegando
Momento esse de agradecer
Momento esse de reviver
Tudo que tinha decidido

Fechamos o circulo
E eu no meio
As princesas da lei mística 
Abriram o circulo 
E eu surgi com a bandeira do Brazil 
E gritei," OBRIGADA SENSEI!" 

E depois chorei...