Capitulo 16- uma vez decidido, realize custe o que custar
No dia seguinte acordei com o enfermeiro entrando no quarto para aplicar uma injeção e me dar os primeiros seis comprimidos do dia. O enfermeiro não era o mesmo enfermeiro que parecia o lutador de luta livre, mas também era alto, forte e me deu a injeção tão rápido e tao leve que eu nem senti a picada. A parte mais difícil continuava sendo os comprimidos, mas ele também não se importava com o longo tempo que eu demorava para tomar os comprimidos.
Minha oração tinha sido respondida de forma perfeita! Um quarto bonito com televisão, um tratamento maravilhoso e uma bandeja de cafe da manha com tudo que tinha direito dentro da dieta. Eu estava me sentindo no paraíso!
Precisava fazer tudo direitinho para sair rápido do hospital e participar do festival dos jovens. Então passei a tomar todo o suco de beterraba com cenoura e laranja que eu costumava sempre jogar fora pela janela. Me esforçava muito para tomar todos os comprimidos na primeira tentativa para nao desperdiçar nem um pedacinho do remédio. Fazia meu Gongyo e Daimoku todos os dias assim que acordava e andava pelos corredores para exercitar o meu corpo. Também aproveitava para conhecer os outros pacientes e falar do budismo. Queria falar mais e mais do budismo para muitas pessoas!
Uma vez por semana eu tinha exames para verificar como estava meu pulmão esquerdo. O mais importante era vencer a doença para ela não ser mais contagiosa. O tratamento teria que ser por seis meses para que isso acontecesse! Mas eu não tinha seis meses! Eu tinha menos de três! O festival aconteceria em breve e eu tinha que ser vitoriosa na minha decisão!
Quando eu orava, pensava no meu objetivo e na minha decisão de viver pela felicidade das pessoas. Como eu tinha sido vitoriosa e já não corria mais risco de vida, eu sentia que o festival dos jovens seria minha primeira oportunidade para começar a cumprir meu juramento. Por isso eu não podia ser derrotada!
Minha mãe levou algumas revistas e jornais da BSGI para eu ler. As orientações do Presidente Ikeda, meu mestre, me ajudaram a fortalecer minha fé e convicção de que eu seria vitoriosa. Eu estava a cada dia mais convicta! Eu estava a cada dia mais forte! E eu estava me sentindo mais feliz, apesar de estar ainda no hospital! Já não me sentia mais miserável e triste como no dia que acordei depois da cirurgia. Eu estava cheia de coragem e esperança!
Os dias foram passando e eu continuei a dedicar -me nas leituras das orientações do Presidente Ikeda e na recitação do meu Gongyo pela manha e noite. Eu fazia Daimoku varias vezes ao dia!
No dia da visita daquela semana, minha mãe me contou que meu pai tinha ido me visitar na UTI uma vez mas eu estava dormindo e que ele tinha decidido praticar o budismo novamente se eu ficasse boa. Apesar de não me importar com nada que vinha do meu pai, eu fiquei feliz com a decisão dele. Praticar seria a única forma dele transformar seu Carma negativo. Mas a decisão dele não durou muito! quando ele viu que eu já estava muito melhor, ele parou de praticar de novo! Alem de meu pai ser um pouco preguiçoso, ele tinha dificuldades em assumir compromissos. Talvez por causa do uso das drogas. Não sei ao certo. Também não me interessava muito o que vinha dele! Eu apenas queria que ele praticasse para nunca mais fazer coisas erradas!
Naquela semana fiz os exames e o medico disse que minha recuperação estava sendo muito positiva e como resultado dessa recuperação, eu não precisava mais do tubo que estava no meu pulmão e dos remédios que eram injetados na minha veia. O medico e dois enfermeiros vieram na parte da tarde daquele mesmo dia tirar a borracha do meu pulmão e a seringa da minha mão.
"Tatiana, preciso que voce respire fundo e prenda a respiracao", disse o medico.
"E o que o senhor vai fazer?", eu perguntei.
"O que eu vou fazer, você nao precisa saber. Mas para que você nao sinta dor, voce precisa fazer o que eu disse."
Comecei a chorar.
"Esta chorando porque", ele perguntou.
"Porque sei que vai doer!"
"Como pode saber que vai doer? você já fez isso antes?"
Olhei para o medico com os olhos cheio de lagrimas que mal conseguia o enxergar.
"Olha, você me disse que quer sair logo desse hospital. Tirar essas coisas de você e um sinal de que sua recuperação esta cada dia melhor. Concorda comigo?"
Eu balancei a cabeça confirmando.
"Então, vamos tirar a borracha? "
Eu respirei fundo umas três vezes, mas não consegui prender a respiração. Ainda estava com medo.
O medico me olhou e sorriu para me acalmar.
"Vou contar de um a três e no três você segura a respiração" ele disse.
Fiquei nervosa. Pensei no Sensei e na minha decisão e quando ele chegou no tres eu fechei os olhos e prendi a respiração.
"Pode abrir os olhos Tatiana. Já acabou" ele disse.
"Mas como já acabou? Eu não senti nada!"
"Eu te disse que seria rápido."
A borracha estava coberta de sangue e um dos enfermeiros veio imediatamente ate a mim para costurar o buraco que ficou na minha pele enquanto o outro enfermeiro tirou a seringa com a agulha que estava na minha mão direita.
Quando eles terminaram eu sorri e relaxei na cama. Nossa, como era boa a sensação de não ter mais nada grudado em mim o tempo todo! Agora podia caminhar mais pelos corredores.
"Doutor, agora que estou melhor vou poder sair do hospital em breve", eu disse.
"Estar melhor não significa que possa ir embora", o medico respondeu." Mas tenho que confessar que se a sua recuperação continuar tão rápido assim, não terei motivos para te prender aqui." O medico riu.
"Minha oração estava funcionando novamente! Minha recuperação estava sendo mais rápida do que o medico esperava. Precisava orar mais e com mais determinação!", pensei alto.
E assim o fiz! Orei mais Daimoku e acreditei mais e mais que a vitoria seria certa!
As meninas da organização (BSGI) vinham sempre me visitar nos dias das visitas e me contavam como estavam os ensaios do festival. Minha prima Ataandia também estava na dança e ela me contava tudo com detalhes e dizia que sentia minha falta no grupo. Ela na verdade não era minha prima de sangue, mas desde o dia que o pai dela foi participar no grupo que funcionava na minha casa, nos nos tornamos mais do que amiga.
Também vinha me visitar a responsável do setor pifano,instrumento que eu tocava na banda feminina Kotekitai, pelo menos duas vezes por semana. Eu fiquei muito surpresa e contente com a preocupação dela comigo. A visita dela e das meninas do festival me davam mais vontade de lutar e vencer!
Toda semana o resultado dos exames mostrava minha recuperação! Quando completou um mês e 19 dias que eu estava internada, tivemos a visita do medico.
Eu estava muito curiosa para saber o que o medico queria tanto falar comigo e minha mãe.
De repente o medico entrou no quarto com uma pasta na mão.
"Olá Tatiana! Como se sente hoje?" Ele perguntou.
"Muito bem!"
"Pronta para ir para casa?"
"Como assim doutor? Posso ir embora?"
"Sim, você pode!"
Eu fiquei muito emocionada. Mais uma vez lagrimas veio nos meus olhos e a felicidade que eu senti era maravilhosa.
"Mas o senhor disse que ela ficaria aqui pelo menos seis meses", minha mãe disse.
"Era o que eu acreditava. Mas sua filha desde a cirurgia ate agora tem mostrado recuperações e resultados que nem eu consigo explicar" ele disse.
"Mas eu sei doutor!" Eu disse. "Eu sou budista e minha oração me ajudou a vencer tudo!"
O medico me olhou com uma expressão de surpresa com a minha resposta.
"Sei que tem coisas que a fé consegue realizar que a medicina não consegue explicar. Mas então, se você diz que foi sua fé, deu certo e você terá alta do hospital amanha."
Eu pulei de alegria! "Agora posso participar do festival!" Eu disse quase gritando.
"Calma, calma. Seu tratamento continua em casa com os remédios e as injeções. Você precisa se alimentar muito bem e descansar o máximo que puder. Nao pode se cansar desnecessariamente e nem pegar muito sol e tempo frio. Qualquer resfriado e recaída e um perigo para você." ele disse.
"Mas eu prometi. Eu sinto que eu fui vitoriosa porque eu prometi participar desse festival junto com meus companheiros."
Minha me me olhou e rapidamente disse,"Pode deixar doutor, eu cuido dela."
No dia seguinte pela manha minha mãe veio me buscar de carro com um amigo e eu despedi do medico, da tia dele e dos enfermeiro que estavam de plantão. Agradeci a todos do fundo do meu coracao!
Quando chegamos do lado de fora do hospital eu tive que fechar meus olhos varias vezes por causa da claridade do dia lindo que estava fazendo! muito tempo dentro do hospital me deixou com as vistas sensíveis. UM MÊS E VINTE DIAS INTERNADA! Quantas coisas tinham acontecido naquele tempo! Quantas descobertas! Quantas vitorias! Eu estava me sentindo muito feliz e vitoriosa!
Quando chegamos em casa meu pai estava lá nos esperando.
"Parabéns filha! Que bom que você esta em casa" ele disse.
Apesar de não gostar de ficar perto do meu pai eu aceitei o abraço dele porque minha mae estava perto e eu estava mesmo muito feliz com a minha vitoria!
Minha casa estava preparada para me receber. Uma cama improvisada no sofá da sala, porque eu não tinha um quarto só para mim. Toalhas e talheres separados encima de uma mesinha também improvisada perto do sofá. Um almoco delicioso que minha mae tinha deixado preparado desde do dia anterior para quando chegássemos em casa. A comida da minha mae estava tão boa que comi duas vezes. Que saudade da comida da minha mãe! Que saudade do tempero da comida da minha mãe! O aconchego de casa e o carinho da minha mae me deu uma sono profundo e eu dormi por toda a tarde. Quando acordei meu pai já não estava mais em casa, como de costume.
No primeiro fim de semana depois que sai do hospital seria o ensaio do festival. Minha mãe estava preocupada com o meu bem estar e ela tentou algumas vezes me convencer de não participar para que minha recuperação fosse mais rápida ainda.
"Mãe não posso. Eu prometi. E o Presidente Ikeda diz que " Uma vez prometido temos que concretizar."
"Desculpa filha. Eu sei que você esta certa. Eu apenas fiquei preocupada de você ter uma recaída."
"O pior já passou mãe."
Ela me olhou e sorriu confirmando.
O dia do ensaio chegou e eu estava super ansiosa para chegar ao local do ensaio e dançar junto com minhas amigas da Gakkai. O dia estava lindo ensolarado e minha mãe comentou com um pouco de preocupação que seria um dia bem quente. Ela então preparou uma mala com bastante água, frutas e nosso almoço. Também pegou um guarda-chuva, um boné e os remédios e toalhas para secar meu rosto. A doença não era mais contagiosa mas o medico tinha dito que era melhor ainda usar tudo separado.
Chegamos no local do ensaio um pouco atrasadas porque tínhamos muitas coisas para preparar antes de sair de casa. O local do ensaio era na casa de um membro da Gakkai em Campo Grande. A casa era grande e o ensaio estava acontecendo no terraço da casa. Eu subi as escadas devagarinho para não fazer muito esforço e me cansar rápido. Eu queria guardar as minhas energias com a dança!
As meninas estavam ensaiando a coreografia sem a musica e quando elas me viram correram ate a mim para me dar boa boas vindas e também os parabéns pela grande vitoria. Estavam todas muito felizes! Pareciam minhas irmãs, minha família!
Minha prima Ataandia e outras meninas me ajudaram a pegar a coreografia. apesar de estar de boné, minha mae me acompanhava o tempo todo com um guarda- chuva aberto para que eu não pegasse o sol forte que fazia. A dedicação da minha mãe em todos os aspectos para me apoiar na minha decisão foi crucial para eu cumprir o que tinha prometido!
Todas nos estávamos ensaiando de uniforme solicitado pelos responsáveis do festival para agüentar o sol quente nos dias de ensaio. Calca comprida e camiseta branca de malha fina. A cor branca era a cor mais fresca que não absorvia o calor e a calca também nos protegia de não machucar o joelho se caíssemos no chão. Para algumas meninas era muito difícil ensaiar com roupas como aquela, mas para mim que era membro da banda feminina Kotekitai, era normal pois também ensaiávamos com o mesmo uniforme.
A musica que nos iríamos dançar era uma das musicas que eu mais gostava do musico Milton Nascimento "CORAÇÃO DE ESTUDANTE." Fiquei muito emocionada quando vi as meninas dancando com aquela musica.
Consegui participar mais ou menos de uns seis ensaios antes do festival e no ultimo ensaio, exatamente uma semana antes do festival a responsável da dança veio falar comigo.
"Tatiana, na parte final da dança nos vamos todas correr para o meio, fechar um circulo e abaixar como se fosse uma concha. Quando chegar a parte final da musica "folhas, coração, juventude e fé" vamos abrir e fazer uma meia lua. E do meio vai surgir alguém que vai se posicionar na frente da meia lua segurando a bandeira do Brazil."
"Que lindo!" Eu disse.
"E todas nos queremos que essa pessoa seja você!"
Meus olhos encheram de lagrimas e eu chorei.
"Nao chora Tatiana! Você nao quer?"
Depois de segurar as lagrimas eu disse," Será uma honra para mim fazer isso, mas eu acabei de chegar e as meninas estão se esforçando tanto por tanto tempo que eu acho que deveria ser uma delas."
"Mas foram elas que disseram que tem que ser você. Por toda luta que você fez para chegar aqui e participar desse festival"
Respirei fundo e sorri.
"Então eu aceito representando todas elas e o Sensei, nosso mestre!"
Todas as meninas bateram palmas e gritavam quando a responsável anunciou que eu tinha aceitado a abrir a bandeira do Brasil no momento final da apresentação.
Eu estava muito, mais muito feliz!
O dia do festival chegou! Tantos jovens de diferentes grupos; dança, ginastica etc... andando de um lado para o outro no Colégio Campo Grande. As outras divisões também estavam presente dando apoio de todas as formas; transporte, arrumação do local, decoração etc... E também as mães com bolsas e bolsas cheias de lanches para seus filhos e para oferecer a mais alguém. Minha mae também tinha levado comida sobrando para dar aos que não tinham lanche.
Eu estava muito nervosa para o momento da nossa apresentação. Enquanto esperava no local de concentração eu fazia Daimoku junto com as integrantes do grupo e veio um filme na minha cabeça de tudo que eu tinha vivido naqueles um mês e vinte dias que fiquei no hospital. Lembrei do meu juramento ao Sensei e da minha decisão de praticar pelo resto da minha vida e de viver pela felicidade das pessoas como meu mestre fazia. Estava tão emocionada que nem percebi a hora passar e chegar o momento de entrar.
"Todas prontas? Somos nos agora!" Gritou a responsável da nossa dança.
Meu corpo estremeceu
Meu coração disparou
E as lagrimas novamente molharam meus olhos.
Entramos e posicionamos
Olhei para o publico que enchia as arquibancadas
Esperamos a musica começar
A musica começou e nos começamos a dançar
Nao conseguia ver ninguém
Somente enxergava o horizonte
Estava pensando na vida
Estava pensando no Sensei
Dancei para o mestre
Dancei para as pessoas
Dancei para o futuro que me esperava
Dancei para vencer sempre
A parte final se aproximava
E meu momento estava chegando
Momento esse de agradecer
Momento esse de reviver
Tudo que tinha decidido
Fechamos o circulo
E eu no meio
As princesas da lei mística
Abriram o circulo
E eu surgi com a bandeira do Brazil
E gritei," OBRIGADA SENSEI!"
E depois chorei...