Capitulo 12- Viver ou Morrer
A dor que eu senti na cirurgia foi inesquecível! Durante a cirurgia eu chorei e recitei Nam-Myoho-rengue-kyo ao mesmo tempo desesperadamente. Eu não consegui controlar minhas emoções. Eu desejei que tudo aquilo acabasse logo porque eu não sabia por quanto tempo mais eu agüentaria aquela dor. Depois de um longo momento chorando e fazendo Nam- myoho- rengue- kyo eu perdi a consciência e cai no sono. Eu acho que não foi um sono normal porque eu dormi por dois dias direto.
Quando eu acordei tinha um enfermeiro cuidando de mim. Ele era um homem baixo, moreno com um grande e branco sorriso. Ele estava adicionando soro e remédio em frascos que estavam correndo através de uma borracha fina ate a agulha que estava injetada na minha mão. Eu também tinha um aparelho de oxigênio no meu nariz e um tubo de borracha dentro do meu corpo ate meu pulmão para puxar a secreção que ainda estava lá.
"Bom dia Bofe!" Ele disse.
"Bofe" era um tipo de nome amigável que os gays daquela época costumavam chamar as pessoas quando queriam mostrar simpatia.
Eu nao tive energia para responder! Eu olhei para ele de forma amigável e ele manteve o sorriso brilhante.
"Eu tenho cuidado de você desde a sua cirurgia. Estou indo para casa em alguns minutos e outro enfermeiro esta vindo me substituir", ele disse.
Eu olhei nos olhos dele e balancei minha cabeça confirmando que eu tinha entendido.
"Os médicos vem te ver depois do cafe da manha. Você precisa de alguma coisa?"
O que eu precisaria naquela situação? O que eu necessitaria naquele lugar? De repente eu pensei.
"Sim!" Eu disse.
"Ah! Finalmente você fala!" Ele disse.
Eu sorri com meus olhos já que eu não tinha forca nem para abrir a boca.
"Você poderia pedir a minha mãe para trazer meu Juzu e minha escova de dente por favor?" Eu falei lentamente, quase sem voz. Eu queria escovar meus dentes porque eu sentia um cheiro e gosto estranho na boca. Eu também queria fazer Daimoku ( Nam-myoho-renge-Kyo) usando meu Juzu. Eu adorava meu Juzu! Eles eram brancos , pequenos e muito bonito! Alguém tinha me dado o juzo mas eu não lembro quem foi.
"Escova de dente eu sei o que e, mas o que e Juzo?" Ele perguntou.
"Isso e um tipo de acessório que eu uso quando eu oro. Eu sou budista e minha mãe vai entender quando você falar com ela." Eu disse a ele.
Ele me deu um olhar curioso e virou-se rapidamente o corpo dele e a cabeça. Ele parecia um modelo desfilando na passarela. Ele me fez rir e eu tive meu primeiro momento feliz depois da cirurgia! Eu gostei dele! Ele era muito engraçado e tinha um ótimo senso de humor.
Antes de ele terminar o horário dele, ele veio ate a mim e me contou que tinha dado meu recado a minha mãe.
"Sua mãe vai trazer o que você pediu amanha." Ele disse.
"Muito obrigada!"
"Ah! Ela também me pediu para te contar que ela recitou Daimoku ( Nam-myoho-renge-Kyo ) por 48 horas enquanto você estava dormindo depois da sua cirurgia."
Eu fiquei surpresa com o que ele tinha me contado! Com minha mãe conseguiu fazer aquilo! Meus olhos encheram de lagrimas depois que ele me contou.
Mais tarde minha mãe me contou que ela tinha sentado na frente do Gohonzon para orar por 48 horas sem dormir para orar por minha vida! Ela somente parava quando ela precisava ir ao banheiro, fumar um cigarro ou comer alguma coisa. Meu pai também tinha orado com ela por alguns momentos. Muitos membros da BSGI ( Brasil Soka Gakkai Internacional) da organização local também foram a nossa casa para orar com minha mãe. Muitos deles tinham ido duas vezes no mesmo dia, antes e depois do trabalho. Outros membros da SGI que viviam em outros bairros, cidades e ate países, tinham também orado por mim.
Eu fiquei muito emocionada pelo suporte deles! Parecia como se eles fossem parte da nossa família! Eu nunca esquecerei o que eles fizeram e eu sempre terei gratidão por eles!
Eu também fiquei muito emocionada com a atitude da minha mãe. Ela teve a coragem e disposição de orar por tanto tempo sem dormir.
Quando o enfermeiro estava pronto para ir embora, ele de repente veio ate minha cama e perguntou se eu podia contar a ele sobre minha oração quando ele voltasse ao trabalho em dois dias.
"Eu estou curioso para saber o que e essa oração." Ele disse.
eu sorri. "Sim eu posso." Eu disse.
Então ele foi embora feliz.
Eu nao podia imaginar que minha necessidade de ter meu Juzu comigo podia criar uma situação em que uma pessoa pudesse se interessar pela minha oração.
Os médicos vieram logo assim depois do cafe da manha e eu nao tive tempo de terminar o meu. Mas para ser honesta, eu não me importava! Meu cafe da manha era horríve! Era suco de cenoura com beterraba e eu detestava aqueles legumes! Uma vez eu joguei o suco pela janela depois que a enfermeira tinha saído do quarto, apesar de estar consciente de que o suco era bom para mim.
Haviam dois médicos na minha frente! Um deles eu reconheci porque ele tinha feito a minha cirurgia e pediu-me por muitas vezes para eu parar de falar Nam-myoho-renge-Kyo. Mas o outro medico eu estava encontrando pela primeira vez. O medico que tinha me operado me apresentou o outro medico dizendo que ele era especialista em pulmões e que ele cuidaria de mim a partir daquele momento. Então eles me explicaram para mim a real situação que eu estava me deparando.
Eu ouvi eles cuidadosamente e eu estava chocada com tudo que eles disseram! Eu estava com tuberculose com água na pleura e estava muito avançado porque os sintomas não tinham aparecido no inicio da doença. Consequentemente meus dois pulmões estavam muito afetados e fracos. Como o meu pulmão esquerdo estava cheio de secreção, eu tive que ser operada as pressas quando eu cheguei no hospital para impedir que o pulmão parasse de trabalhar. O pulmão direito também estava afetado e eu talvez tivesse que passar por outra cirurgia para operar o pulmão direito.
"A segunda cirurgia será mais complicada que a primeira. A razão e porque ambos os pulamos estão muito afetados e fracos", disse o medico especializado em doenças de pulmão.
"E você pode correr o risco de morrer", disse o medico, que tinha me operado na primeira cirurgia.
Eu fiquei muito surpresa com a sinceridade dele! Eu achei que aquele tipo de informação, de que um paciente poderia morrer, deveria ser dado para alguém da família. Mas ele me contou que eu podia morrer sem considerar que eu era uma adolescente! Eu tinha só 15 anos!
"O que vocês precisam fazer antes da cirurgia?" Eu perguntei.
"Nos precisamos fazer alguns exames no final dessa semana para ver se o pulmão direito esta forte o suficiente para uma cirurgia", um dos médicos me respondeu.
"Portanto eu terei que esperar uma semana para saber o que se passa comigo?"
"Sim! Mas nos temos certeza que você precisara de uma cirurgia no pulmão direito", disse o medico especialista em doenças do pulmão.
Eu fiquei paralisada com todas aquelas informações! As vezes eu achava que minha vida nao era boa, principalmente por causa do meu relacionamento com meu pai e meu problema de comunicação ( gagueira). Eu ate cheguei a pensar uma vez em tirar minha vida mais eu nunca tive coragem. Quando eu comecei a participar da reuniões do budismo com minha mãe, reunião do budismo para as crianças e na kotekitai ( banda da Gakkai para as meninas) eu me senti mais feliz e parei de pensar em morrer. Mas agora eu estava diante da morte mesmo sem querer morrer.
Minha mãe veio me visitar no mesmo dia a tarde e trouxe meu Juzu e a escova de dente. Ela estava sozinha porque na UTI só entrava uma pessoa por vez.
"Oi querida, como se sente?, ela perguntou.
"Eu estou bem mãe , mas me sinto cansada."
"Eu sei! Você teve uma cirurgia demorada e difícil. O medico teve que inserir uma borracha ate o seu pulmão para puxar o pus que estava lá. Eu estava do lado de fora da sala olhando pela janela e eu vi passar vários vidros de sangue e pus", ela disse.!
"Eu ainda tenho pus lá", eu disse.
"Sim você tem, mas a borracha ira puxar todo o pus quer o seu pulmão acumulou." " você tem idéia o quanto e seria a sua situação?"
" Eu tenho mãe! O medico veio aqui hoje e explicou tudo para mim, e ele também disse que eu precisarei de uma outra cirurgia no meu pulmão direito, e que pode ser pior do que a primeira cirurgia."
"Querida! Minha mãe então olhou para mim. "Eu tenho que dizer que essa situação e meu Carma por correr o risco de perder minha única filha que eu amo muito, e eu sei que vou sofrer muito! Mas, essa situação também e seu Carma querida, porque você pode morrer jovem e não aproveitar a vida nessa existência.
Eu não disse nada.
"Querida eu preciso da sua ajuda para mudar esse Carma!"
"Como posso mudar esse Carma mãe?"
"O único caminho que eu sei e recitando Nam- myoho- rengue-kyo", ela disse." Você tem que decidir transformar esse veneno em remédio! Então ela compartilhou comigo um gosho de Nitiren Daishonin que diz:" Acredite neste Mandela com todo o seu coração. Nam- myoho-renge- Kyo e como o rugido de um leão. Que doença pode portanto ser um obstáculo?"
Aquela seria minha segunda oportunidade de ver como a pratica funcionava realmente! A primeira vitoria tinha sido conseguir o instrumento pifano para tocar na banda kotekitai. Agora eu tinha um desafio muito maior! Eu podia morrer! Eu tinha que ver a prova da oração naquele momento se eu não quisesse morrer! Como poderia eu mudar aquela situação em uma semana? Eu me perguntei por muitas vezes.
Então eu lembrei minha mãe dizendo,"Não perca tempo pensando! Entra em ação!"
Eu comecei então a orar muitas oras por dia. Um dia eu consegui orar por 10 horas deitada na cama. Enquanto eu orava eu vi muitas pessoas chegarem na UTI com vida e saírem mortas. Eu estava com medo! Eu não queria morrer!
Cada vez que eu orava eu me sentia mais forte e determinada a ultrapassar aquela situação e viver. Eu decidi que eu não seria operada no pulmão direito, e que meu pulmão estaria limpo sem nenhuma secreção no dia do exame. Aquilo seria praticamente impossível se realizar em uma semana! Mas eu tinha decidido viver portanto eu tive que acreditar que o Nam-myoho-rengue-kyo transformaria o veneno em remédio, como Nichiren Daishonin e Sensei ( Daisaku Ikeda) diziam em seus escritos e orientações.
De repente eu pensei no Sensei ( Daisaku Ikeda) e senti uma forte gratidão por ele! Porque? Eu nao sabia? Mas eu senti que aquele era o momento perfeito de estabelecer a relação de mestre e discípulo com ele.
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