Capitulo 15 - Não ha oração sem resposta
"Fala doutor!" Minha mãe disse. "Nos estamos preparadas para qualquer noticia!"
Eu olhei para o medico tentando adivinhar o que poderia ser dessa vez. Se eu já não estava na UTI, que era o local que pessoas que sofriam risco de vida, e se meu pulmão direito estava perfeito, o que então seria?
O medico olhou para minha mae e disse,"Como sua filha não sofre mais risco de vida e não precisa mais de cirurgia , ela terá que ser transferida para outro hospital. Um hospital que atende pacientes com tuberculose para começar o tratamento o quanto antes" o medico disse.
"Como assim doutor? perguntou minha mae. "Onde fica esse hospital?"
"Hospital de tuberculose em Jacarepaguá", ele respondeu.
"Mas esse hospital não e bom! Todo profissional na área de saude sabe que esse hospital esta sem recursos e que muitos pacientes que sofrem de tuberculose ao invés de melhorarem e se curarem, pioraram. Alguns pacientes nem saíram com vida" , minha mae disse.
Eu virei minha cabeça rapidamente para o medico esperando a resposta dele.
"Nao e facil encontrar hospital que aceitam pacientes com tuberculose porque a doenca e contagiosa. Normalmente os hospitais particulares tem uma ala especial para doenças contagiosas mas muito hospitais públicos não tem, e os que tem, estão cheios e não ha vagas."
"Vocês já verificaram em todos os hospitais possíveis ?" minha mae perguntou.
"Sim!" ele respondeu.
Eu não sabia o que pensar, mas pela cara da minha mãe essa noticia não era nada boa.
"Quando será a transferencia doutor?" Perguntou minha mãe.
" Em alguns dias"". Ele respondeu sem muitos rodeios." Sinto muito."
Depois de dizer isso ele nos deixou sozinhas.
"Mãe, esse hospital e mesmo ruim?"
"Parece que sim filha! Eu nunca estive lá mas todos dizem que não e bom para ninguém ser internada nele."
"O que faremos mãe?"
"Não sei filha. Precisamos orar para achar uma outra solução. Começamos sempre qualquer batalha com a oração como nossa arma. Nichiren Daishonin nos garante que não ha oração sem resposta. E eu não quero você naquele hospital!"
Minha mãe sempre tinha uma frase do Gosho nos momentos difíceis e decisivos!
Quando minha mãe foi embora orei para não ser transferida para aquele hospital que o medico disse e ter o melhor tratamento possível.
Enquanto orava pensei nas pessoas que tinham me visitado naquela tarde e uma das minhas responsáveis contou do festival dos jovens da área Campo Grande que estaria acontecendo em três meses. Os ensaios já tinham começado e que cada ensaio surgiam mais e mais jovens, membros e convidados, para participarem de algum grupo. Tinham grupos de dança, ginastica dos rapazes e outros mais.
"E isso! Vou decidir ficar boa logo para participar do festival! " pensei alto.
Orei todos os dias, de manha e a noite, com minha decisão na mente, FICAR BOA E PARTICIPAR DO FESTIVAL DOS JOVENS!
Quase uma semana depois o medico veio me dizer que eu seria transferida naquela tarde.
Minha mãe veio me ver e ambas estávamos angustiadas esperando a chegada do medico.
O medico chegou com dois enfermeiros e disse para nos pegarmos todos os nossos pertences e que os enfermeiros nos ajudariam a carregar tudo.
"Para onde vocês vão levar minha filha doutor?"
"Eu disse a senhora que ela seria transferida ainda essa semana."
Minha mãe olhou para mim e eu para ela. Meu coração batia tão rápido que achei que fosse ter um ataque cardíaco. Comecei a fazer Daimoku mentalmente. Minhas orações tinham sido pra não ser transferida para o hospital que o medico disse. Será que minhas orações dessa vez não seriam respondidas? Lembrei da minha mãe dizendo para as senhoras que ela visitava," Não crie duvida! Se duvidar o objetivo não será concretizado!"
Orei mais fortemente mentalmente. Minha testa chegou a ficar enrugada. Não podia começar a fazer Daimoku alto. Os enfermeiros podiam se assustar.
Entramos no elevador e os enfermeiros estavam carregando nossas bolsas. Minha mãe estava empurrando o carrinho que estava o tubo do remédio que corria para a minha veia e eu puxando o carrinho que estava o tubo que puxava o pus do meu pulmão esquerdo. O elevador ficou cheio com nos quatro e tantos troles. Ninguém conseguiu entrar nos andares que o elevador parava.
Um dos enfermeiros apertou o botão de um número que não era o da saída do hospital. Minha mãe e eu trocamos olhares mas não dissemos uma palavra. O elevador parou e nos o seguimos.
O andar que nos estávamos era bem diferente do que eu estava. As paredes do corredor era bem brancas e as portas dos quartos nao eram muito proximas uma das outras. Olhei para dentro de um quarto que estava com a porta aberta e observei que os quartos eram grandes e tinham ate televisão.
Me questionei porque estávamos passando por aquele andar se nos íamos para outro hospital.
De repente os enfermeiros pararam de frente a uma porta de um quarto e pediu para eu entrar. Minha mãe também entrou comigo. O quarto era bem grande e tinha duas camas, uma na entrada e uma perto da janela. Não tinha ninguém lá no momento mas a cama perto da janela estava desarrumada. Então alguém já estava lá.
"Tatiana! Pode sentar nessa cama aqui na entrada e espera que o doutor vem falar com vcs " Um dos enfermeiros disse.
E assim eu fiz. Sentei e olhei para minha mãe que estava se ajeitando em uma cadeira de Madeira que estava perto da minha cama.
Minha mãe não disse uma palavra. Eu também não. Acho que ela também estava fazendo Daimoku mentalmente.
Alguns minutos depois chegou o medico acompanhando uma senhora que parecia estar nos seus setenta anos. Ela era parecida com o medico e ele a conduziu ate a cama. Depois que ele a ajudou a deitar, ele então veio ate nos.
"Desculpem a demora. Eu estava fazendo uns exames na minha tia."
A senhora que tinha acabado de entrar era a tia do medico.
Eu e minha mãe olhamos para a senhora e ela deu um sorriso bem ligeiro mexendo apenas um dos cantos da boca.
"Vocês devem estar achando tudo isso estranho." O doutor disse.
"Confesso que sim doutor. Eu pensei que a saída da minha filha do quarto era para ir para aquele hospital que o senhor disse outro dia." Minha mãe respondeu. "E de repente sem muitas palavras e explicações os enfermeiros deixou-nos aqui."
"Desculpa todo esse mistério mas foi preciso todo o cuidado da saída da sua filha do outro quarto para cá porque o que eu estou fazendo e uma coisa que normalmente não e permitido nesse hospital." Ele disse.
Eu ouvia o medico atentamente e curiosa para saber qual era o segredo.
"Então o que esta acontecendo doutor?" Minha mãe perguntou com a voz um pouco tremula. Não sei se era de nervoso ou de emoção.
"Depois que eu comuniquei a vocês sobre a transferencia da Tatiana eu fiquei pensando na sua preocupação do hospital não corresponder ao tratamento que a senhora desejava para sua filha e então durante a semana antes de chegar o dia da transferencia dela eu tomei uma decisão."
"Que decisão foi essa doutor?" Minha mãe perguntou.
Eu nao abri a boca para dizer nenhuma palavra! Eu estava assustada com o que estava por vir. Mas eu senti em meu coracao que não era coisa ruim.
"Eu decidi assumir todo o tratamento da Tatiana incluindo a compra dos remédios da tuberculose que aqui não tem e deixar ela aqui nesse quarto junto com minha tia." Ele disse.
"Então vou poder ficar aqui nesse hospital doutor ?" Eu perguntei.
"Sim exatamente! Nesse quarto particular oferecido a mim para eu internar a minha tia!"
Minha mãe e eu abrimos um sorriso.
"Mas doutor, eu vou contaminar a sua tia com a minha doença!" Eu disse a ele.
Ele riu. "Não vai não! Sabe porque?"
Eu balancei a cabeça negando.
"Porque ela tem a mesma doença que você. A diferença e que uma pessoa jovem como você,se recupera mais rápido. Ela já esta aqui mais de quatro meses."
"Eu também vou ficar aqui todo esse tempo?" Eu perguntei a ele.
"Provavelmente sim! Vamos pensar em seis meses. Mas se você se recuperar rápido pode ser em três."
"Não posso doutor!" Eu disse.
"Nao pode o que?"
"Ficar aqui por tres meses!"
"Tatiana! O que você esta dizendo?" Minha mãe perguntou.
"Mãe! Eu decidi que sairia do hospital curada antes do festival dos jovens da área Campo Grande que será em tres meses. Preciso sair antes para ensaiar a dança com as outras meninas."
"Pode esquecer isso!" O medico disse. "Primeiro será impossível você sair antes de tres meses. Segundo mesmo que por alguma razão você saia em tres meses, você precisa continuar o tratamento em casa e nao pode fazer esforço, pegar sol etc. Acho melhor você tirar essa idéia da cabeça. "
Minha mãe me olhou com um olhar que eu conhecia bem. Ela sabia que tínhamos que respeitar a decisao do medico, mas ela sabia que para nos budistas a oração era fundamental para transformar qualquer situação que parecia impossível.
"Agora deixo vocês e volto mais tarde com o enfermeiro desse plantão que vai ficar responsável de te dar os medicamentos essa noite. Serão sempre os mesmos enfermeiros para você e minha tia." O doutor disse se despedindo.
Minha mãe me olhou e disse,"Parabéns por mais essa vitoria filha!"
"Para a senhora também mãe! Eu sei que a senhora esta sempre orando muito Daimoku para eu sair logo dessa situação."
Ela riu e me abraçou.
"Mãe! Eu quero muito participar o festival!"
Ela me olhou fixamente.
"Filha, esse budismo e para nos dar a possibilidade de mudar nossas vidas no mais profundo. Se você deseja muito isso, ore para concretizar! Já tivemos mais uma prova de que não ha oração sem resposta."
Minha mãe estava completamente certa! Eu tinha orado para não ser transferida para o hospital de tuberculosos que minha mãe tanto temia e sim para outro e minha oração foi além do que eu desejei. Além de ter ficado no mesmo hospital, estava em um quarto particular em uma área privada para uso dos médicos com suas famílias e tendo todo o tratamento providenciado e financiado pelo meu medico. Eu jamais teria pensado em todos esses detalhes se eu tivesse que fazer um objetivo mais detalhado! Minha oração e meu coração foram além da minha razão.
Depois de celebrarmos nossa vitoria, minha mãe me ajudou a tomar banho, me deu a janta e foi para casa.
Sentei na cama com o quarto já escuro e fiz meu Gongyo. Durante o Gongyo senti um forte desejo de vencer e dançar no festival. Então orei Daimoku com forte convicção de que eu conseguira transformar o impossível em possível.