Capitulo 6 - Meu pai e eu
" Valmir, não chegue em casa tarde. Eu estarei de plantão no hospital a noite e Tatiana tem medo de ficar sozinha quando escurece." Eu ouvia minha mae dizer para meu pai. Mas ele nunca vinha para casa cedo e ainda pior, as vezes ele não voltava para casa.
Onde nos morávamos era um bairro pobre e não havia ainda luzes nas estradas. A noite era tão escuro que a lua e as estrelas brilhavam mais intensamente. As vezes um carro da policia passava pelas ruas porque apesar das pessoas que viviam lá não tinham muito dinheiro, do ladroes ainda entravam nas casas para roubar qualquer coisa que você tivesse.
Quando meu pai não voltava para casa eu não conseguia dormir facilmente e as vezes eu ficava acordada ate o sol nascer de manha. Eu tinha muito medo do escuro! Eu tinha medo de alguém entrar na nossa casa! Eu tinha medo de fantasma! Qualquer som que eu ouvia me assustava! Eu tinha apenas 9 anos de idade.
As vezes eu caia no sono cansada de tanto chorar!
No dia seguinte meu pai sempre chegava em casa antes da minha mae. Ele sabia que ela ficaria muito zangada e desapontada se ele não estivesse.
" Desculpa sobre o que aconteceu! Eu não queria ter deixado você sozinha mas eu não consegui voltar para casa ontem a noite." Ele disse.
Eu achava que ele não gostava de mim, por isso me deixava sozinha toda a noite!
" Por favor não conte para a sua mae! Ela vai me matar se ela souber que você dormiu sozinha e ela ira para a prisão. E você ficara sozinha nesse mundo!" Ele disse.
Ele sempre me ameaçava!
Eu odiava meu pai por causa daquilo! Eu achava ele mau e egoísta!
Mas ele estava certo! Minha MAE tinha um temperamento forte e ela costumava jogar pedras e panelas na cabeça do meu pai quando ela estava com raiva. Ele sempre corria para evitar de ser atingido. E ela dizia constantemente que ela mataria meu pai se alguma coisa má acontecesse comigo.
Eu definitivamente não queria ficar sozinha! Eu amava muito minha mae! Eu me preocupava com ela!!!
Aquilo não seria o único segredo que eu guardaria da minha mae. Outras situações sérias aconteceram e eu decidi não contar a ela.
Eu tinha vergonha de ser filha do meu pai porque outras crianças que eram vizinhos costumavam ver meu pai e seus amigos usando drogas em um morro perto de nossa casa quando eles estavam lá brincando. A área que eu vivia era rodeada de morros com muitas arvores. Quando eu passava pelas crianças vindo da escola eles gritavam: " Olha a garota que tem um pai que usa drogas!" Eu não podia falar nada para defender a ele ou a mim porque era verdade o que eles estavam dizendo.
Consequentemente meu comportamento com meu pai mudou depois dele ter feito o que fez comigo; me deixar sozinha em casa, usar drogas na rua ao ponto de outras crianças mexerem comigo e outras coisas mais. Eu tinha raiva dele! Eu parei de falar com ele, parei de beija-lo e abraça-lo! Eu não pedia nada a ele! Eu não perguntava nada a ele! Eu não olhava para ele! Eu não queria ter ele como meu pai! Eu desejava que ele morresse!
Meu silencio começou a preocupar meu pai mas ele não me perguntava por medo de eu contar para minha MAE todas as coisas que ele tinha feito.
Porque eu não contei para minha MAE o que tinha acontecido comigo quando eu ficava com meu pai, eu não imaginava que meu silencio, meu segredo , me prejudicaria. Mais tarde eu comecei a ter dificuldade de comunicação , de falar. Minha voz não saia quando eu queria falar principalmente em publico e quando eu estava nervosa ansiosa.
Minha luta para aceitar meu pai levou muitos anos!
Quando era adolescente uma responsável local das jovens mulheres ( Joshibus) da Soka Gakkai veio me visitar. Ela então perguntou como era meu relacionamento com meus pais. Eu lembro que eu só contei a ela sobre meus sentimentos negativos que eu tinha pelo meu pai. Eu não contei a ela as razoes porque eles eram meus segredos mas eu disse quanto eu odiava ele e o quanto desejava que ele morresse.
Ela nao se mostrou surpresa e a expressão do rosto dela se manteve da forma que estava antes de me ouvir. Então ela disse: " você tem que orar Nam-myoho- renge- kyo para a felicidade do seu pai! Sua felicidade depende da dele!"
Eu fiquei espantada! Eu não concordei com ela!
" Como posso orar para a felicidade do meu pai se ele tem feito muitas coisas ruins para mim e minha MAE!", eu disse pra ela". " Quando eu oro a única coisa que eu consigo desejar e que ele pudesse desaparecer! Nossa vida seria muito melhor sem ele!"
" Eu compreendo os seus sentimentos! Eu posso sentir o quanto você tem sofrido por causa dessa situação com seu pai. Mas ele não e seu pai por acaso. Tem uma ligação carmica entre você e ele. " Ela disse.
Eu não queria admitir, apesar de eu estar consciente do principio budista de " causa e efeito". Eu pensei no Gosho ( carta) escrita pelo Buda Nichiren Daishonin que diz:" Se você quiser compreender as causas que fez no passado, veja os resultados que são manifestados no presente. E se você quiser compreender quais resultados que serão manifestados no futuro, olha para as causa que existem no presente. [ tentativa de tradução do inglês para o portugues].
" Você precisa transformar seu carma em missão! " Ela disse. " Ele e seu pai porque você escolheu ele e essa família!"
" O que? Eu não escolhi ele! Como eu podia fazer isso? Porque eu escolheria um pai que somente faz coisas ruins para mim? Você e louca?"
" Não, Eu não sou maluca!" Ela respondeu. Se você encontrou esse budismo nessa vida significa que você e Boddhisattva da Terra e que você decidiu vir nessa família para transformar a situação e provar o poder da lei mística. Talvez antes de você nascer poderia ter escolhido outra família, outro pai e outro tipo de vida, mas como você era Boddhisattva da Terra, você escolheu a situação mais difícil para ajudar outras pessoas, nesse caso seu pai e sua mae, serem absolutamente felizes". Ela disse.
Eu achei que ela estava completamente maluca! Mas como eu gostava e admirava muito ela eu decidi pensar e orar sobre tudo que ela tinha dito.
Mais tarde eu li material do budismo que explicava sobre o Boddhisattva da Terra ( 1) e os Dez Estados de Vida (2) , conceitos que me ajudaram a entender minha situação profundamente, não somente com meu pai mais com todas as coisas que aconteceram e que aconteceriam.
Quando ela foi embora eu recitei Daimoku ( Nam-myoho - rengue-kyo) para ser capaz de desejar a felicidade do meu pai. Mas alguns minutos depois que comecei a orar e pensar na felicidade dele, o desejo que ele desaparecesse ou morresse veio na minha mente. Era uma verdadeira batalha entre o que eu desejava e o que era correto fazer.
Eu acho que na época eu ainda não tinha entendido que todas as coisas que aconteciam comigo era minha responsabilidade, desde que eu era a pessoa que tinha feito causas negativas e positivas no meu passado. Eu queria era culpar meu pai por todos os meus problemas e sofrimento! " Isso não e minha culpa!" Eu pensava. " Isso e culpa dele!". Eu queria acreditar naquilo!.
Por muitos anos, enquanto eu orava para mudar meu sentimento pelo meu pai, eu continuei a não falar com ele. Eu somente falava com ele quando era muito necessário, mesmo quando ele me fazia algum favor ou tentava me ajudar de alguma forma. A presença do meu pai me irritava!
Eu nunca pensei que seria possível mudar o ódio que eu sentia pelo meu pai! Mas isso aconteceria um dia..
1- Bodhisattva of the Earth- http://www.sgilibrary.org/search_dict.php?id=175
2- Ten Worlds - http://www.sgi.org/buddhism/buddhist-concepts/ten-worlds.html

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