Monday, November 17, 2014

Capitulo 17


Capitulo 17- Vencer pelo Mestre 

O festival cultural da Area Campo Grande foi minha primeira oportunidade de cumprir meu juramento de viver pela felicidade das pessoas ( Kosen- rufu) que eu tinha feito no hospital. Eu também tinha jurado que seguiria Daisaku Ikeda pelo resto de minha vida como meu mestre. Com a recitação do Nam-myoho- rengue- kyo e do meu juramento consegui transformar meu carma de morrer jovem. Definitivamente eu tinha transformado o veneno em remédio! 

Depois daquele dia emocionante, do festival da area Campo Grande, eu passei a ir em todas as atividades da Gakkai, aos ensaios da Nova Era Kotekitai e fazia minha pratica diária de gongyo e daimoku espontaneamente sem minha mãe ter que me pedir para fazer. Eu queria cumprir meu juramento! Eu tinha que cumprir o que eu tinha prometido. 

Meses depois recebi minha primeira responsabilidade na organização vertical como responsável de bloco das jovens mulheres. E na banda feminina Kotekitai fui informada pela responsável geral da época, Heloísa Helena, que eu poderia tocar saxofone, instrumento que eu vinha acalentando tocar desde quando mudei do departamento pompom tai para a banda. 

Apesar de estar muito feliz em contribuir para o avanço do kosen rufu como responsável de bloco e tocar saxofone na banda, eu tinha dois grandes obstáculos que eu precisava vencer; minha gagueira e vergonha de falar na reunião e a falta de dinheiro para comprar o saxofone. 

A gagueira começou na época em que minha mae trabalhava  a noite como auxiliar de enfermagem no hospital e me deixava com meu pai. Ele constantemente saia a noite e me deixava sozinha em casa. Eu tinha muito medo de ficar em casa sozinha e não conseguia dormir. Tinha medo de escuro e qualquer barulho me assustava e eu chorava. Eu só estava com 8 para 9 anos quando isso aconteceu  e parece que meu nervoso afetou minha comunicação. A cada ano minha gagueira ficava pior e o primeiro local que eu comecei ater problemas foi na escola. Eu não conseguia ler em publico, fazer perguntas quando tinha duvidas na matéria e não fazia amigos porque nem falar o meu próprio nome eu conseguia.

Lembro que quando eu estava na quinta serie, minha professora de português me obrigou a ler um texto em pé na frente dos outros alunos. Ela sabia que eu tinha problema, mas ela não considerou e me ameaçou reprovar-me se eu não o fizesse. Eu fiquei paralisada como uma múmia na frente de todos meus colegas de classe e nenhum som saiu da minha boca. Cada vez que ela dizia:" Leia, leia!" Eu ficava mais nervosa e cheguei a quebrar um dente da frente tentando ler. Meus colegas de classe riram de mim e eu não voltei mais na aulas de português até terminar o ano letivo. Então fui reprovada naquele ano por faltas. O ano seguinte foi ainda pior, porque eu passei a ter medo dos professores. 

Com minha responsabilidade na Gakkai eu precisava usar a voz para varias coisas como por exemplo fazer um Shikai( MC) na reunião, passar informações sobre alguma companha nova, incentivar, liderar gongyo e fazer visitas. Lembro como se fosse hoje que o primeiro gongyo que eu liderei em uma reunião eu não conseguia sair do Hopen pon... O resto alguém continuou  para mim. Quando chegava perto da segunda parte eu falava comigo mesmo:" Sensei eu preciso conseguir falar, eu tenho que conseguir! Pelos membros, pelo meu mestre!" Essa era minha luta interna cada vez que eu era indicada para liderar um gongyo. As demais coisas eu sempre tentava fugir e passar para uma outra pessoa fazer. Não porque eu não queria, porque não me achava capaz de fazer por causa da minha dificuldade de comunicação. Nas visitas individuais, quando eu queria ler uma orientação do sensei eu pedia para a menina ler a parte que estava sublinhada no jornal ou na revista. E escrevia muitas cartas de incentivo para compensar minha falha de não me comunicar com elas como deveria. 

Uma vez minha responsável de área Paulene, me perguntou porque eu era a única que não ligava para ela para passar os resultados. Então eu contei a ela que eu tinha ido ao orelhão telefonar a ela varias vezes mas minha voz não saia quando ela atendia o telefone. Eu ouvia a voz dela perguntando quem era, mas eu não conseguia falar meu nome. Eu ficava com o telefone na mão olhando para os números e ligava e desligava varias vezes sem conseguir dizer uma palavra. Cada vez que isso acontecia, eu chorava e decidia que um dia eu ia vencer minha gagueira definitivamente. 

Então era um desafio para mim fazer as atividades da Gakkai na organização vertical porque eu tinha vergonha da minha situação. Por outro lado eu não tinha muitos problemas na Banda Kotekitai, onde minha voz não era tão necessária. Eu apenas precisava tocar um instrumento. E com a noticia de que eu poderia tocar o saxofone fez com que eu me esforçasse mais na pratica para conseguir ter o meu. 

Na época que eu recebi a noticia, tanto minha mãe quanto meu pai estavam desempregados. Minha mãe tinha saído do hospital para trabalhar como enfermeira particular, mas estava sem nenhum paciente. Falei com minha mãe sobre o saxofone e ela apenas me disse para eu orar porque comprar um instrumento caro como aquele ela precisaria de trabalho mais do que bom.  

Comecei a orar para minha mãe conseguir um trabalho que desse condições a ela de pagar todas as contas de casa e comprar meu saxofone. Mas eu precisava de um saxofone rápido porque estávamos ensaiando para participar do festival cultural da ECO 92 que seria no maracanazinho  e eu já queria tocar o saxofone. Então perguntei a varias pessoas conhecidas se sabia de alguém que tinha o saxofone para me emprestar. Um dia conversando com meu amigo de classe Leslie, ele me disse que ele tinha um saxofone novinho na caixa e que nunca tinha usado e que me emprestaria. 

"Como assim novo?" Eu perguntei. 

"Novo! Meu pai ganhou alguns instrumentos musicais e me deu o saxofone mas eu não toco. Esta na caixa do jeito que ele me deu." Ele respondeu. 

Eu não estava acreditando no que estava ouvindo. 

"Seu pai não vai brigar com você se me emprestar?" 

"Claro que não! O instrumento e meu e eu posso fazer com ele o que eu quiser. E você e minha amiga e sei que vai usar bem na banda do budismo." Ele disse. Ele sabia que eu era budista e que participava na banda feminina da Soka Gakkai. 

No mesmo dia fomos a casa dele para pegar o saxofone. Ninguém estava em casa e ele pegou a caixa com o saxofone encima do armário do quarto dele. Ele abriu e la estava o saxofone dourado. Era realmente novo! Era lindo! 

Fui para casa toda feliz e tentei tirar o som do instrumento sozinha até chegar o dia do ensaio. No dia do ensaio eu levei o saxofone e foi a primeira vez que na hora de separar por setor ( instrumento, departamento) eu estava no setor saxofone. Apesar de estar sozinha e tentando tirar som sozinha, eu estava muito feliz. 

Quando os membros do Ongakutai ficaram sabendo que na banda tínhamos um saxofone, um dos membros da banda que tocava saxofone se ofereceu para me ensinar. Então comecei a ter aulas com André Acyoli que na época morava em Copacabana. Eu viajava por quase duas horas de onde eu morava ( Urucania- entre os bairros Santa Cruz e Paciencia) ate Copacabana. as vezes eu nao tinha dinheiro para pagar a passagem e ia de roupa de escola. as vezes nao tinha nada para comer e ficava mais tonta ainda quando soprava para tirar som do saxofone. 

Apesar  de todas as dificuldades, eu estava aprendendo rápido e estava muito feliz. Para completar minha alegria, fui indicada como responsável do setor saxofone e definitivamente o setor foi fundado. eu era o primeiro membro do setor. 

Tudo estava indo muito bem até o dia que a mãe do meu amigo deixou a caixa do saxofone cair, quando estava limpando o quarto dele e ela descobriu que lá dentro tinha uma enorme pedra ao invés de um instrumento. 


Esse capitulo e em homenagem ao meu amigo Leslie, mais conhecido como Noquinho- faleceu assassinado na Urucãnia)

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