Capitulo 14 - transformando o veneno em remédio
Depois do resultado do exame, que dizia que meu pulmão direito estava limpo sem nenhuma secreção, eu já não corria mais risco de vida e fui transferida da UTI (Unidade de Tratamento Intensivo) para a enfermaria.
O quarto para onde eu fui transferida, tinha mais duas pessoas e eu era a única jovem. As camas não eram separadas com uma cortina verde como era na UTI e tínhamos no quarto um banheiro somente para nos três. Na UTI tinha um banheiro para mais de vinte pacientes. Mas também não era um problema tao serio ter somente um banheiro pois muitos pacientes tinham que ter o banho no leito. Eu e era um deles! Meu primeiro banho de chuveiro foi depois de uma semana.
Enquanto eu esperava na enfermaria o dia do exame, o medico solicitou aos enfermeiros que começassem o tratamento da tuberculose com os medicamentos adequados. Eram seis comprimidos por dia. Era muito difícil para mim tomar tantos comprimidos porque eu sentia ânsia de vomito. Sempre foi assim desde que eu era criança e minha mae esmagava os comprimidos para que eu conseguisse tomar ou então pedia remédios em liquido.
Para piorar minha situação com os remédios, uma das enfermeiras de plantão não tinha nenhuma paciência e começou a me maltratar todas as vezes que ela me dava os remédios e também quando aplicava as injeções. Ela praticamente gritava comigo para eu engolir os comprimidos rapidamente. E enfiava a injeção na minha veia com forca. Eu as vezes deixava de tomar o comprimido porque não descia na primeira tentativa e deixava na mesa para tomar mais tarde no meu tempo. E eu também sentia muita dor no local da injeção.
Eu não falei nada para minha mãe sobre a enfermeira malvada. Conhecendo bem a minha mae, ela seria capaz de dar uma surra na enfermeira. Apesar da minha mãe já praticar o budismo por sete anos e já tinha mudado muitas coisas, inclusive o forte temperamento dela, eu não queria correr o risco de ver minha mãe perdendo a cabeça e discutir com a enfermeira por minha causa. Então decidi aguentar tudo em silencio!
Comecei a fazer Daimoku ( oração budista) para resolver aquela situação,pois eu tinha muito medo da enfermeira.
Um dia um enfermeiro, que aparentava ser bem jovem, entrou no quarto e perguntou se eu estava bem. Como eu não o conhecia, eu disse que sim. Depois ele voltou outras vezes com a mesma pergunta. Mais tarde descobri que ele era supervisor dos enfermeiros.
Um dia ele estava no quarto conversando comigo e a enfermeira malvada entrou. Ela foi atenciosa quando me deu os comprimidos e pela primeira vez não senti a agulha da injeção entrar na minha pele. Contudo o enfermeiro chefe deve ter percebido algum sinal de medo da minha parte quando eu a vi entrar porque assim que ela deixou o quarto ele perguntou porque eu fiquei assustada com a enfermeira. Então eu contei a ele a historia dos comprimidos e da injeção. Ele ouviu tudo e disse para eu não me preocupar porque aquilo nunca mais se repetiria.
No dia seguinte, ao invés da enfermeira veio um enfermeiro. Apesar do enfermeiro parecer com um lutador de luta livre, ele tinha uma mão muito leve quando me dava a injeção e nunca se irritava quando eu fazia ânsia de vomito ao tentar engolir os comprimidos. Ele também era muito divertido e sempre me fazia rir quando não tinha mais veias nas mãos para aplicar as injeções e tinha que me furar nas pernas, pés ou virilhas! Dizia que eu era a pessoa mais furada que ele conhecia. Era um momento muito divertido!
Senti mesmo a proteção , através da minha oração , quando o supervisor dos enfermeiros estava comigo na hora que a enfermeira veio me dar os medicamentos. E eu fiquei mais tranqüila.
Mesmo na enfermaria, eu tinha que continuar com a borracha enfiada no meu pulmão e a seringa aplicada em uma das mãos para continuar a receber o remédio que corria do frasco para o tubo e depois na minha veia. Cada gota que caia na minha veia eu sentia queimar. A Pelo menos eu não precisava mais do aparelho respiratório! A parte mais difícil era quando eu queria caminhar pelos corredores. Nos primeiros dias foram muitos difíceis caminhar segurando dos troles porque eu estava fraca e as vezes ficava tonta. Mas eu insisti e andava sempre que podia! Era muito melhor do que ficar deitada na cama o tempo todo! Minhas costas estavam começando a descascar de tanto ficar deitada.
Quando eu andava pelos corredores eu sorria para os outros pacientes, que eram a maioria idosos, e fiz alguns amigos. Cheguei ate a ensinar o Nam-myoho- rengue-kyo para uma das senhoras que conversava constantemente.
O dia do exame chegou e eu fui para um outro andar do hospital junto com o medico e um dos enfermeiros que estava de plantão. Minha mae não estava presente! Na enfermaria ela só podia estar comigo nos horários de visitação, que eram normalmente no final da tarde antes do jantar.
Fizemos os exames e o medico disse que me visitaria no quarto depois do horário de visitas para passar o resultado.
Fui para o quarto me preparar para o horário da visita. Eu gostava muito do horário da visita! Minha família, amigos e minha mae vinham sempre me visitar. Não lembro do meu pai nessa hora, por isso acho que ele não estava muito presente também nesse momento. Quando todos chegavam eu ficava muito feliz, mas odiava a hora de deles irem embora. Me sentia muito sozinha. Uma tia minha, irma do meu pai, sempre chorava quando me via. Ela também tinha chorado quando me visitou uma vez na UTI. Eu não gostava de ver ninguém chorando por minha causa. Eu ficava triste.
Como o medico tinha dito, ele veio ao quarto passar o resultado do exame. Pela primeira vez minha mae pode ficar depois do termino das visitas.
"E então doutor", disse minha mãe.
"Então, felizmente o resultado do exame deu o mesmo, seu pulmão direito não tem secreção. Ele esta completamente limpo!" O medico disse.
Eu e minha mae sorrimos, mas sem muito entusiasmo, porque no fundo já sabíamos que o resultado seria o mesmo. Eu tinha certeza que o primeiro resultado tinha sido positivo em resposta da minha decisão e oração.
"Nos realmente não temos uma boa explicação do porque seu pulmão direito não foi afetado uma vez que o esquerdo estava totalmente afetado pela doença. Normalmente um afeta o outro" O medico disse.
Eu e minha mãe vibramos mais uma vez! Nos sabíamos que a medicina não poderia explicar o que a fé tinha feito! Nos tínhamos transformado nosso Carma!
"Agora temos um outro problema", o medico disse interrompendo nosso momento de comemoração.
"Que problema e esse doutor?" minha mãe perguntou.
O medico parou em frente a cama onde eu estava sentada e olhou para minha mãe e depois para mim.
O que poderia ser? O que mais estava acontecendo para o medico fazer todo aquele suspense?
"Seja o que for eu estou decidida a transformar qualquer veneno em remédio", eu disse a mim mesma.
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