Tuesday, January 13, 2015

Capitulo 19 - Eu Prometo




Capitulo 19- Eu Prometo 


Os ensaios para o festival da ECO 92 aconteciam no Sanbrodomo ( onde as escolas de samba do Rio de Janeiro desfilam). Minha mãe estava participando do coral, meu pai no prólogo e eu claro, na banda Kotekitai. 

Não foi difícil convencer meu pai de participar do festival. Ele gostava muito de estar em meio às pessoas e como ele era pintor, fazer parte de um painel humano era também uma forma dele usar a arte que ele tinha como profissão e hobby. 

Minha mãe adorava fazer parte do coral e cada ensaio ela saia mais e mais feliz de estar cantando com tantas outras pessoas; membros e simpatizantes da Gakkai. 

Nos saiamos de casa muito cedo para os ensaios, que chegavam a ser todos os fim de semanas. Eu me emocionava muito cada vez que o trem parava em cada estação, até chegar à Central do Brasil, e entrava muitas pessoas; jovens, crianças e adultos, vestidos com calça de malha, camiseta de malha, tênis e boné. Eu sabia que todos estavam indo para o mesmo local. Todos estavam indo para o ensaio do festival. Apesar de ser muito cedo, a alegria e falatório que surgiam em cada vagão do trem, eram contagiantes. 

Na Kotekitai, além de estar tocando o saxofone, eu tinha sido indicada como uma das responsáveis do GT ( grupo de treinamento) para atuar também no festival. Eram meninas que tinham passado nas últimas entrevistas e ainda não tinham comprado seus instrumentos ou ainda não tinham decidido que instrumento tocar. Então foi criado uma coreografia para que elas dançassem em um dos momentos da apresentação da banda. 

Era muito difícil ser responsável do departamento do sax e do GT ao mesmo tempo, principalmente porque a música que nós estávamos ensaiando era muito longa e difícil. Era uma música japonesa ( que não lembro mais como se escreve). As vezes no meio da apresentação do GT, eu saia correndo para o setor sax quando eu percebia que estavam tocando fora do tempo. Precisava ajudar os dois departamentos ao mesmo tempo. Além disso, quando as responsáveis de São Paulo, que estavam nos apoiando, decidiam mudar toda a coreografia porque achavam que ainda não estava bom, eu tinha que criar uma nova coreografia para o ensaio dia seguinte , as vezes no mesmo dia ou até na mesma hora. Cada ensaio era uma supresa e eu tinha que estar preparada para qualquer mudança. 

Nunca questionei ou reclamei de nenhuma mudança repentina. Eu queria dar o meu máximo pelo grupo, e assim eu fazia. Me desafiava e me dedicava com toda disposição sinceramente. Tanto era o esforço que um dia fui dormir na casa da minha prima Ataandia depois de um sábado quente de ensaio no sambódromo e na hora do Gongyo na casa dela, eu comecei a recitar o gongyo; " Myoro- rengue-kyo, Hopen pon dai ni" e acordei no dia seguinte de pijama e na cama. Eu tinha apagado completamente na hora do gongyo de tanto cansaço. 

Os ensaios estavam cada vez mais intensos conforme o dia da apresentação se aproximava. O calor que fazia no Sanbrodomo atrapalhava um pouco os ensaios, principalmente da banda Kotekitai, porque tínhamos metade dos membros do grupo que vinham de São Paulo para nos ajudar. A banda não tinha um número suficiente para apresentar somente com os membros do Rio de Janeiro, então vieram muitos ônibus de São Paulo, cheio de membros da Kotekitai. Como a maioria eram descendente de japoneses, eram bem branquinhas e passavam muito mal com o calor que estava fazendo. Muitas paravam na enfermaria montada de propósito para os ensaios com o departamento médico da SOKA Gakkai. A temperatura chagava as vezes a 40 graus e um caminhão de água foi mandado para o local e jogou água em todos os integrantes de vários grupos. 

Apesar de todas as dificuldades, eu estava contente com tudo que estava acontecendo. Somente uma coisa me deixava triste, era quando o ensaio terminava e na reunião nossa de responsáveis de setor e departamento,  as responsáveis falavam do uniforme e perguntavam quem tinha trazido o dinheiro para pagar o uniforme que seria confeccionado exclusivamente para o festival. Eu praticamente me escondia nas minhas pernas pois sentia muita vergonha de não ter o dinheiro. 

Meus pais não tinham conseguido o dinheiro ainda para pagar nenhum uniforme; nem o meu é nem o deles. E eu ainda era só uma estudante e ganhava nem sequer mesada para juntar. Minha única solução que eu enxergava na época, era fazer DAIMOKU para meus país conseguirem mais trabalho e assim pagar meu uniforme. Mas a situação em casa estava bem difícil e até para levar almoço para o ensaio era um grande desafio. As vezes eu não levava comida suficiente pois não tínhamos, e ficava sentada sozinha em um canto para ninguém perceber que ainda tinha fome. Algumas responsáveis quando percebiam que eu estava isolada, vinham e sentavam comigo e dividiam suas comidas. Não sei se elas perceberam ou não minha situação, mas posso dizer que elas me salvaram da fome muitas vezes, e também me incentivaram muito com a atitude delas. 

Em uma dessas reuniões de responsáveis depois do ensaio, uma das responsáveis pediam para levantar a mão quem ainda não tinha pago o uniforme. E eu levantada meu braço com muita vergonha. 

Até que um dia em um ensaio, veio até a mim uma outra responsável de setor e perguntou:

"Oi você ainda não pagou seu uniforme?" 

"Não, ainda não." Eu respondi. 

"Responsável de setor e departamento tem que ser a primeira a pagar para incentivar os membros." Ela disse. 

"Eu sei. Mas não tenho ainda. Dependo dos meus país e eles ainda não conseguiram. " 

Então ela disse para eu continuar orando para pagar o meu uniforme o mais rápido possível. E assim eu fiz. Era a única coisa que eu podia fazer naquele momento, orar. 

No ensaio seguinte, quando a reunião de responsáveis após o ensaio, ia começar, a mesma responsável que me perguntou porque eu ainda não tinha pago meu uniforme e disse que eu como responsável deveria pagar primeiro do que os membros, veio até a mim novamente. 

"Oi Tatiana. E aí já conseguiu pagar seu uniforme?" Ela perguntou. 

"Infelizmente ainda não." Eu respondi envergonhadamente. 

Então ela pegou um envelope do bolso da frente da calça de moletom azul que estava vestindo, e meu deu. 

"Abre." Ela disse. 

Eu abri o envelope e dentro estava algum dinheiro. Olhei para ela sem saber o que falar. 

"É o dinheiro do seu uniforme." Ela disse. 

"Mas, mas, eu não sei como e quando posso te pagar." Eu respondi gaguejando. 

"Não tem problema. Me paga quando você puder. Agora vai lá na responsável dos uniformes e paga logo. Não quero ver você levantar o braço quando ela perguntar quem ainda não pagou o uniforme." 

Meus olhos enxergam de lágrimas e eu agradeci profundamente aquela pessoa que eu mal falava nos ensaios e a conhecia apenas de longe. O nome dela era Ana Cremilda e eu sabia que esse nome e o rosto dela, jamais seria esquecidos na minha vida pelo resto dos meus dias nessa existência. 

Fui correndo pagar meu uniforme a responsável dos uniformes, como a Ana Cremilda tinha me ordenado. 

Dois anos depois do festival, eu entreguei a ela o dinheiro que tinha me emprestado também em um envelope. 

"Aqui está o dinheiro que você me emprestou para pagar meu uniforme." 

"Que bom que conseguiu." Ela disse. " Mas eu não quero o dinheiro de volta. Fica com ele para você." 

"Mas eu demorei dois anos para ter esse dinheiro e te pagar." 

"Eu sei. Eu imagino o quanto se esforçou para isso e fico muito feliz que não tenha esquecido." Ela respondeu. " o que eu desejo é que você mude sua condição financeira e possa fazer o mesmo por muitas meninas no futuro." 

Eu me emocionei e respondi:" okay eu prometo." Eu sabia que o que estava se passando ali não era nada relacionado com o dinheiro em si, mas sim com a forte decisão de mudar as circunstâncias, de mudar o carma. 


Jurei a ela e a mim mesma que mudaria minha situação financeira ao ponto de poder pagar uniformes, viagens para São Paulo e comprar lembrancinhas para as reuniões. 

E assim eu fiz anos mais tarde e continuo fazendo como havia prometido a ela. 









3 comments:

  1. Tatiana eu bou as lágrimas, gostaria tanto de poder te conhecer pessoalmente para poder te dar um abraço bem apertado.
    Fico aqui aguardando ansiosamente cada Relato que vc publica, que coisa maravilhosa. Parabéns!!!
    De longe lhe envio o meu abraço!!!!

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    1. Oi Patricia,
      Que querida vc e!!!! Sim vamos nos encontrar em breve... Obrigada por ler meus relatos!!!!
      Já estou escrevendo o capítulo 20 e desculpa a demora kkkk e que ao mesmo tempo estou escrevendo em inglês e meu primeiro livro para criancas.

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  2. Nooossa que lindo relato! Eu estava lá também, eu era do pom pom tai e minha irmã do trompete, aquele festival foi incrivel! Lembro com muitas saudades

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